domingo, 20 de dezembro de 2009

A memória afetiva do Natal


Creio que seja a memória afetiva de uma pessoa o seu manancial mais sagrado. E creio que nenhuma outra data tenha um poder de rememoração como o Natal: não há quem não se emocione ou, ao menos, não se deixe envolver por uma leve nostalgia quando o assunto em pauta passa pela casa do Papai Noel. A uma simples menção da festa da Natividade, vêm logo à nossa mente aqueles fatos que remontam ao passado, à cadeia de acontecimentos sucessivos que vão se desenhando ao longo da vida de alguém, dando-lhe um caráter próprio. E nada pode ser mais genuíno que traços e histórias familiares vividas na infância e, de modo especial, no Natal de cada ano!...
Talvez seja a data natalina a mais agregadora do nosso convencionado calendário, principalmente porque tem a função primordial de unir a todos, condensando idéias (originalmente, pelo menos) de alegria, festa, doação, solidariedade. É o Natal também como um álbum de família cujas imagens parecem se manter numa indelével linha do tempo!... Quem é que não tem na mente, por exemplo, aquele painel de infância ao redor da árvore de Natal ou esperando o presente sonhado? As trapalhadas dos primos engraçados, as risadarias sem fim... Na memória parecem ficar para sempre até os barulhos e os sabores da ceia, do farfalhar dos papéis de presente e de uma bola se quebrando na árvore de Natal... Ouviu o ruído levemente estridente aí na sua mente? Pois eu ouvi quase perfeitamente!...
Discorrendo sobre isso, lembrei da minha Caloi vermelha cheia de fitas coloridas no guidon! E da Anda Nenê, do Genius, da casinha de bonecas da Atma (imortalizada pelo comercial) e dos jogos da Grow (será que ainda existem?).... Também me estampam o imaginário as vendas ininterruptas de presentes, às vésperas do Natal, na estimulante e colorida loja de meus pais. Na televisão, Scobidoo e O Natal dos Flinstones... Os filmes de Natividade, as celebrações descontraídas de amigo oculto... Lembram-me, ainda, os livros coloridos de Polux e Mabel... e o livro de histórias em que os brinquedos ganhavam vida à noite!... Quanto encantamento! Houve também um Natal em que me vesti de Virgem Maria num presépio humano, na festiva chácara de meus amigos Ubaldo (saudoso!) e Ilma. O único senão foi o fato de não dispormos de um bebê de verdade e, por causa disso, meu boneco Fofinho representou o papel do Menino Jesus. Os anfitriões foram gentis e altruístas, e fizeram vir do céu um helicóptero repleto de presentes também para as crianças que não tinham Natal. Aquilo foi uma verdadeira festa de solidariedade! É claro que não tive tal alcance de compreensão à época, porém mais tarde pude enxergar a Cristandade presente no ato. E é desse espírito e dessas lembranças natalinas que o mundo anda precisando hoje, creio. Talvez seja mesmo esse resgate original de lembranças a saída para se ilustrar o Natal com as suas verdadeiras cores, em todas as gradações e nuances da alegria, da generosidade e da reciprocidade de sentimentos.
Enfim, é o Natal, com toda a certeza, um dos marcos cronológicos – de significação religiosa e cultural – que mais tem apelos na história das pessoas. Por isso, na significação essencial de sua celebração – o Menino-Deus renascendo pelo amor –, seu sentido não pode se perder, isso é certo. Esqueçamos a crítica da publicidade da época. Apenas pense que é tempo de Natal!...

Desejo que a festa da Natividade materialize o ideal da lembrança, dos sentimentos e emoções plantados na memória, em algum ponto,,. Esquecendo a pressa e as transformações do tempo, é necessário resgatar com o Natal um pedaço importante da sua história de vida e daquilo que constitui a sua referência original como ser humano. Nesta festa natalina, pois, tente esquecer e driblar os atropelos de Mr. Chronos, atraindo para a sua lembrança e para a sua vida a magia própria dos tempos de criança! Seja original, viva seus sonhos, cristalize seus hábitos genuínos e, acima de tudo, faça sua introspecção nas horas mágicas da Noite de Natal!... Busque a si mesmo e encontrará o próximo, o amor, a vida em sua plenitude!...
Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Por Hipócrates!


Você conhece alguma pessoa que possa classificar como absolutamente normal? Antes de responder, não se esqueça das sábias sentenças de Tolstoi e de Caetano... 
Karina diria que não é absolutamente normal qualquer pessoa com a qual conviva e se dê bem. Segundo a própria, aliás, ela atrai pessoas não normais e adoravelmente loucas... Sim, porque os ditos loucos, na verdade, são as pessoas mais criativas e interessantes que conheço, ela afirma.
A coisa é tal que até ao procurar ajuda para algum problema de saúde, a moça se depara com médicos um tanto fora do senso comum... Como naquela vez em que, sofrendo de fascite e não arranjando tempo (nunca!) para fazer fisioterapia, teve uma nova crise de dores no pé direito... E o pior: sempre na época do Natal! 
Era a segunda vez que o problema ecoava em agudos gritos de dor na prévia da festa natalina. E Karina, como sempre, recorria aos médicos plantonistas da época. Daquela vez, por sorte, não procurara nenhum pronto-socorro de madrugada (como era seu feitio) e, assim, procurara um ortopedista, especificamente. O bom também fora que, assim que adentrara o setor e preenchera a ficha, o médico logo chamou:
– Karina Pereira Flandres. 
E a moça se adiantou, adentrando o consultório. Logo se sentou e deu um sorriso de convenção para o médico, que do outro lado falou:
– Senhorita... Karina, o que há? Algum problema? 
A mocinha, pouco paciente que era, teve vontade de dizer: não, imagina, gosto de visitar hospitais, ou: senti que, se viesse até aqui, poderia conhecê-lo, ou, ainda: a época de Natal me estimula a aproximação de pessoas enfermas, e por isso estou aqui como voluntária... Mas ela conteve seus ímpetos pouco admiráveis (Dona Wilma não a educara assim) e disse apenas:
– É que tenho fascite e...  
O médico era um completo aloprado e não lhe permitira continuar.
– Ah, sim, fascite plantar... é uma dor própria da fascia plantar. Fasc... vem de facia, portanto, fascite: inflamação da fascia, entende? 
Karina só balançava a cabeça afirmativamente.
– Então, como eu ia dizendo, se trata de uma inflamação, às vezes grave e irreversível, provocada por traumatismos de repetição na base da tuberosidade medial do calcâneo, se é que me entende... 
Karina dá um riso sem graça, e inquire o médico:
– O senhor não vai examinar o meu pé? É o direito. 
– Ah, sim – diz o médico louco, que segura o pé esquerdo da moça e continua a discorrer sobre a disfunção: – Está vendo aqui... essa protuberância... São as forças da tração no ponto de apoio que causam a ite do caso, quero dizer, a inflamação, o que acaba ocasionando fibrose e completa degeneração das fibras fasciais originadas no osso. Entendeu? 
Estava claro que Karina não entendera nada, principalmente porque aquele não era o pé acometido. Mas ela sabia que de nada adiantaria chamar a atenção para o pé certo. Já o dissera, e ele fez ouvidos moucos. Então ela ia educadamente assentir que sim quando seu interlocutor, sem absolutamente se importar com a sua opinião, mandou uma seta:
– A obesidade costuma ser uma das causas.
Assim também era demais. E Karina não se conteve: 
Que é isso, doutor? Como assim... obesidade? Sou manequim 38! Acho que estou muito bem para os meus dezenove anos!
– Talvez já haja em seu organismo alguma predisposição para futura obesidade, e neste caso algum ponto de apoio esteja sendo atingido por um tipo de peso concentrado ou coisa parecida...
– Mas como pode haver uma consequência de um peso que ainda não existe, doutor?

– Minha filha, você quer refutar as afirmações de Hipócrates nos tomos Das Articulações e Das fraturas?
– Fraturas? Mas não tenho nenhuma fratura no pé! 
O médico, agora com ares irretrucáveis de louco inconteste, aloprou de vez:
– Menina, você é muito teimosa! Por Asclépio, Higia e Panacea, eu não estudei pra isso! E nem sou expert em casos de fascia plantar... Minha especialidade é esmagamento e amputação! Está aqui o endereço do meu consultório particular para o caso de precisar me procurar. - e estendeu a mão ossuda com um cartão (nada) de visitas. 
Karina arregalou os dois olhos já muito grandes: O que aquele louco pensava em fazer com ela?
O doidivanas, porém, por uns minutos demonstrou certa normalidade convencional ao formular sua receita:
– Apesar de não ser essa minha especialidade, vou te prescrever inicialmente – mas veja bem: apenas inicialmente! – a terapia da crochetagem mioaponeurótica.
– ??? 
– Mas vou já te mandar pro meu colega Paulo de Tarso – e lhe deu um cartão do colega. – Você vai precisar se submeter a duas sessões semanais, ao longo de um período de um pouco mais de um mês, cinco semanas para ser preciso. Apenas se lembre: nada de saltos-agulha, nem alimentos condimentados, nem esforços concentrados. Limite suas ações e ingestões nas festas por causa do pré-operatório!
Karina não entendera absolutamente nada. E o doutor não explicou o que era crochetagem... A moça desconfiava tratar-se de algum tipo de fisioterapia, algo específico para os membros inferiores, mas não conseguia pensar direito com aquele aloprado lhe impingindo os ouvidos de aparentes impropérios. Mas a paciente se deu por feliz de passar as mãos na receita e poder sair dali... Despediu-se do médico com poucas palavras e praticamente fugiu da clínica. Uma vez lá fora, resolveu pegar na bolsa o cartão do profissional indicado, e quase teve um treco quando leu: Paulo de Tarso Duboc, cirurgião de pés – casos irreversíveis de traumatologia. 
A moça não sabia se ria ou chorava, se desconsiderava o ortopedista louco ou se desenvolvia um pavor imediato por atendimento de profissionais não-indicados... Resolveu, então, que finalmente iria procurar o fisioterapeuta indicado pela tia. Afinal, essa história de – por uma simples e inicial fascite – ser levada a um atendimento por um especialista em esmagamento e amputação, que, por sua vez, a indicava a um fazedor de cirurgias irreversíveis de pés era mesmo de assustar... até a ela! Coisas que só acontecem com Karina e seu despropositado modo de levar a vida...


Por Sayonara Salvioli

domingo, 6 de dezembro de 2009

Paixão das multidões


Entre os diversos sentidos etimológicos do vocábulo paixão se encontram os de sentimento excessivo e amor ardente. Poetas, romancistas e roteiristas já pintaram tais nuances em versos e histórias que se cristalizaram no imaginário coletivo. Não há, por exemplo, em todo o mundo quem não conheça a dramaturgia de Romeu e Julieta; também não foram poucos os que se emocionaram com Ghost, o outro lado da vida nem os que se puseram a conjeturar sobre a perfídia (ou não) sofrida por Bentinho. O fato é que paixão, em si, é um sentimento avassalador que acomete os humanos. Mas não se lembre apenas a paixão dos romances dualistas, dos convencionais arrebatamentos entre homem e mulher. Há também a chamada paixão das multidões, sentimento coletivo capaz de mover uma nação inteira. E a humanidade já viu muitos casos de comoções políticas ou insurreições sociais, das que marcaram a história.
Realmente não parece necessário elencar aqui algumas das numerosas vezes em que a emoção falou mais alto na história das sociedades. Por diversas vezes, o povo foi às ruas e fez o seu clamor, brigou por suas vontades, fundou civilizações, erigiu monumentos, construiu coisas faraônicas, levantou voos, ergueu e derrubou muros, enfim fez e aconteceu no campo da paixão ideológica!... É e dessa espécie de paixão social que falo aqui, daquele tipo de entusiasmo febril que balança momentaneamente um país no clamor de uma categoria. Foi o que vi hoje.
Antes, porém, de narrar o espetáculo de comoção observado, quero ressaltar a imparcialidade em relação ao tema, aliás, destaque que faço apenas por expressar o que realmente acho da situação, não que houvesse qualquer impropriedade no fato de eu desenvolver também uma paixão assim... Refiro-me à minha não-parcialidade como torcedora de clubes de futebol. A propósito, quando pequena, por volta dos quatro anos, lembro-me de haver declarado ser flamenguista, por indução direta do meu pai. Também me salta à memória um episódio em que um professor de Matemática tentou me fazer “virar a casaca”, presenteando-me com uma camisa do Fluminense. Aliás, ele tentou me aliciar justamente por oposição ao meu pai. Resultado: expressei um tempo uma lacuna tênue entre Fla X Flu...
Mas os anos se passaram e me consagrei mesmo como torcedora absoluta e veemente da seleção brasileira de futebol. Lembro-me de certa definição que manifestei, certa vez, a um tio: na verdade, não tenho um time definido, mas na hora em que o Brasil entra em campo numa partida de campeonato externo, fervilham-me as veias e não perco um só segundo do jogo! E assim sempre foi. Duas ocasiões específicas me vêm à mente ao falar disto... A primeira se deu na Copa de 1982, naquela trágica partida contra a Itália de Paolo Rossi. Apesar de certa face azul de meu sangue um pouco italiano, vibrei e chorei durante noventa minutos de uma disputa tensa para nunca mais esquecer. Cheguei ajoelhada ao final do segundo tempo, sem querer acreditar no placar luminoso na tela à minha frente: 3X2 para a Itália. Mas o meu sofrimento, somado ao de milhões de outros brasileiros, não foi suficiente para modificar a situação... E a constelação do Brasil voltava para casa sem a taça, uma dessas injustiças do futebol que se repetem de tempos em tempos. Eu repetia para todos que aquilo era um absurdo: que tínhamos um time inteiro de estrelas, e que não poderíamos perder assim uma partida na qual só precisávamos de um empate, nada mais. Meu pai, vendo meu inconformismo, tentava me consolar falando das susceptibilidades de um jogo, pragmaticamente: Jogo é jogo; é perder ou ganhar. E quando tem meio termo, tem que haver o desempate de alguma forma. O Brasil era forte, perdeu; agora não tem mais jeito. Mas no fundo também relutava contra o resultado: não fosse o Toninho Cerezo... Ele deixou a zaga vazada, vazada... Recentemente, eu conversei com um empresário muito engenhoso, estrategista por natureza, que me apregoou o mesmo: o Brasil perdeu a Copa de 82 por causa da fraca defesa. É a defesa que garante um campeonato...
A segunda passagem que saltita na minha lembrança refere-se à emoção sentida por ocasião da Copa de 2004, quando o Brasil, finalmente, depois de quase três décadas de lacuna e inacreditáveis enterros na praia, alcançava a vitória no campeonato internacional de futebol. Embora eu não tenha sentido a mesma energia de 82 (não havia os gols olímpicos de Éder, a majestade de Sócrates, a imponência de Falcão ou a confiança de Zico), fiquei naturalmente feliz ao ver o Brasil conquistando uma vitória mundial cadenciada, de 1 a 0 em 1 a 0. Mas, afinal, a conquista da Copa se deu, eu vibrava: Campeão!.. E pensava e bradava que era a primeira vez que eu via o Brasil campeão... como vira nos vídeos da glamourosa copa e 70, como nas lendas imortalizadas dos ícones de 58 e 62...
Como o leitor vê, já me envolvi muito em paixões futebolísticas, mas me considero bastante imparcial para falar de campeonatos internos, visto não haver, ainda, manifestado qualquer paixão nesse âmbito. Posso, pois, falar friamente sobre o espetáculo de comoção coletiva que observei por ocasião da partida de hoje do Flamengo contra o Grêmio, por ocasião da decisão do Campeonato Brasileiro 2009.
Na verdade, comecei a observar o cenário já há algumas semanas quando vislumbrei, ao longo de uma varanda inteira de um prédio da rua em que moro, uma bandeira rubro-negra gigantesca, sem contar as muitas manifestações, pelo Rio de Janeiro inteiro, dos milhares de torcedores veementes que já prenunciavam a felicidade de uma vitória. Não estou aqui fazendo apologia do time, mas fosse qual fosse o time, com a efusividade que vi pelas ruas, não houve como me manter alheia a tamanha paixão... E me pus a divagar sobre a multiplicidade e a abundância das paixões humanas, exacerbações, amores ou idolatrias capazes de grandes feitos, movimentos e conquistas.
Naturalmente sem deixar de privilegiar tricolores, vascaínos, botafoguenses, corinthianos ou os torcedores do Grêmio, não posso deixar de falar que fiquei impressionada com a massiva e veemente torcida do Flamengo. Destaco até que, da varanda do meu apartamento, ouvi por mais de onze minutos seguidos, ininterruptos (quase doze minutos!) um coro de Meeenngo e gritos eivados de entusiasmo e vibração. E, mesmo sem ser flamenguista, pensei na imensa alegria movendo um prédio, um condomínio, um estádio, uma cidade, um país inteiro em mais puro frenesi de emoção coletiva!... Pensei na união proporcionada por tamanha energia e fiquei imaginando o quanto os seres humanos não podem alcançar se reunirem seus esforços e munirem as suas paixões de luta e vontade!... A garra demonstrada pelo time, ora campeão, me despertou para os grandes acontecimentos de corporações e campanhas que ajudam a contar a história do mundo. E, ao olhar pela TV um estádio pintado de cores altaneiras, desejei ir ao Maracanã em dia de decisão, só para ver e sentir bem de perto o espetáculo das grandes comoções coletivas!... Como seria bom se os humanos, costumeiramente, direcionassem o fluxo positivo de seu pensamento para sentimentos e conquistas coletivas, de modo desprendido, sem o afã de competições canibalescas. Afinal, o homem precisa juntar-se ao homem, e não montar uma arena de gladiadores. Nessa era de interesses vis e egocentrismos, é muito bom ver quando alguns – no caso, muitos! – e juntam em prol de uma causa maior!...

Por Sayonara Salvioli

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

FIAT LUX! ou Clara claridade



Andar alto, apartamento claro, sol da manhã, vista mar.

Provavelmente, você já viu um anúncio assim. Note que os itens claro e sol falam da mesma coisa, mas são repetidos propositalmente, ainda que num espaço-limite de caracteres, para se reforçar a ideia de que o apartamento – objeto do anúncio – esbanja luminosidade.

Até então eu não havia percebido tais nuances de intenção – tão claramente descritas – nos costumeiros anúncios publicitários de imóveis para aluguel e venda. Mas, com as experiências da minha recente mudança de residência, percebi a incidência e a reincidência de tais detalhes nos sites e nos classificados de imobiliárias. Entretanto, de certo modo, não liguei importância ao fato, imaginando tratar-se tal aspecto de apenas uma preferência de algumas pessoas.

A generosa mãe-experiência-de-todo-dia, no entanto, tem me mostrado o significado essencial do vocábulo claridade – substantivo feminino designativo de luz, luminosidade, esplendor... na concepção imediata de seu teor semântico. Houaiss relaciona ao termo, em algumas de suas acepções, as noções de brilho luminoso, aurora, clarão, clareza, dia, luminescência, resplandecência, resplendor, sol. Na verdade, embora eu nunca tenha prestado atenção ao teor etimológico de claridade, logicamente eu sentia e sabia a sua expressividade. Afinal, quem não sente a energia intrínseca à Luz? Sabe-se de antemão que se trata de um bem sem igual, algo que ilumina espaços e abre caminhos... É claro que sempre estive consciente disso. O que não me chamava a atenção, contudo, era a antonímia do termo, que remete a vocábulos-ideias como escuridão, nevoeiro, obscuridade, treva. Ora, tais palavras são capazes até de assustar, não é mesmo? Lembrando esses termos, parece que me dei conta – como que num clique – do real efeito da antítese luz / escuridão. Deve, pois, ser mesmo verdade que lugares claros (=iluminados) trazem bonança, afinal o seu oposto significa o obscuro, a treva, o tenebroso. Ora, se o opaco é ruim, então, opostamente o brilho só pode ser bom! Parece silogismo de uma só proposição, mas é mesmo verdade: além de quase todo mundo gostar da claridade, esta é bem mais benéfica e poderosa do que se pode imaginar.

E, na esteira da etimologia, chego ao teor semântico de claridade no contexto da vida. Refiro-me ao que pode significar, na sucessão dos dias, o fato de se estar em ambientes claros e iluminados... Ora, precisei aderir a uma fase mais solar para perceber uma série de coisas que não enxergava antes! Vejo agora como os ambientes da minha casa – antigamente, quase sempre, encerrados em cortinas, ante a luz de abajoures (por força de hábitos arraigados) – podem ficar mais receptivos à luz natural do sol!... Estou habitando um apartamento clean, onde os espaços, cheios de leveza, parecem adornar-se com a suavidade da luz do dia!...

Papos metafísicos à parte – tenho mesmo me rendido a uma convivência diária com o sol, de modo mais direto. Não que eu não gostasse dele antes (já fui, inclusive, uma habitué de banhos solares matinais), mas – por haver adquirido, há uns bons anos, o hábito de me encerrar em um mundo particular, entre livros, DVDs, telas, tapetes, cortinas e laudas – não me predispunha a absorver as horas diárias em consonância com o relógio do sol. Adentrava a noite, as madrugadas (isso ainda faço, mas com certo limite) e, no raiar do dia seguinte, tinha sempre uma história de sono vespertino para acertar... Fusos particulares dentro de um mesmo espaço geográfico!


Dentro dessa ótica – recentemente reinaugurada –, sem querer fiz ilações mentais quase dignas de um estudo (sem pretensões), lembrando vários aspectos que nos remetem à importância da claridade. E cheguei à conclusão de que muitas coisas na vida atestam a ordem habitual: Deixe a luz entrar na sua casa. Falo aqui de elementos vários... Afinal, todos preferem casas claras e buscam tal luminosidade não por acaso. Certamente não é à toa que no cinema vemos retratado o mal num contexto de trevas, assim como na Bíblia e na acepção comum das pessoas. E o reino-poderio da claridade já começa com a própria sentença divina registrada na descrição da gênese: FIAT LUX! (Faça-se a luz!) E tudo começou...

E o homem começou a habitar a Terra, e a inventar seus modos de viver. E o que marcou, então, "primórdios primordiais" desse tempo? A descoberta do fogo! Portanto, a luz!... No compasso da História, acontecimentos e simbologias também foram marcando a dicotomia claridade X treva. Haja vista a denominação Século das Luzes (século XVIII). Aqui se lembre o clarão ocorrido no campo das ideias: o Iluminismo. Na verdade, o movimento significou, justamente, intrínseca oposição aos preceitos da Idade Média, denominada de Idade Escura, justamente por lhe faltar a liberdade de pensamento do homem. Com o Iluminismo – a luz, pois! –, surgiu, ou se re-descobriu o clarão da razão humana, vindo à tona a ideia de valorização do homem como ente pensante e propiciador: mente iluminada!... E tal se refletiu na organização social e política da época. Como resultado natural de um novo pensamento humano – com conscientização e aprimoramento do antropos –, foram implantados os estados-nação, ampliaram-se os direitos das pessoas, enfraqueceram-se as oligarquias tão arraigadas... Abriu-se, então, caminho para a Revolução Francesa: liberdade, igualdade e faternidade... a partir da luz de uma razão recém-descoberta!

E Thomas Alva Edison inventou a lâmpada elétrica! E levou luz a toda parte! Fim absoluto de um tempo de sombras na casa e no cotidiano da humanidade. A claridade aí veio em forma de progresso, conforto e possibilitação energética. A propósito, você já pensou se não houvesse luz elétrica? Já se imaginou vivendo em uma época “clareada” apenas com tochas ou lamparinas? Impensável, não? Isso sem contar que toda a nossa vida diária estaria impossibilitada, afinal é impossível imaginar qualquer movimento dentro de casa sem um eletrodoméstico ou similar. Sem Internet?...

Fugindo ao contexto doméstico, nas matas também encontramos a força da antítese claridade / treva. Ou você não imagina como deve ser uma floresta à noite?... E também não é à toa que se chama de clareira o vão possibilitador em que não há vegetação dentro de uma mata...

Outro dado para esse tratado (risos) é o próprio símbolo de ideia, criatividade, insight, iluminação reveladora: a lâmpada! Quando se quer mostrar, simbologicamente, que se teve uma ideia, desenha-se uma lâmpada! Como a Lampadinha do Professor Pardal... Aliás, qual foi o símbolo escolhido para ilustrar a companhia permanente do cientista genial dos quadrinhos? A lâmpada – leia-se a luz –, e realmente não poderia ser outra!... Também quando as pessoas pensam não haver saída para os seus problemas, mas de repente acham a solução, costumam dizer que encontraram “a luz no fim do túnel”...

Aqui nos reportemos também ao tal ofuscante clarão divino, explicado até pela Ciência que as pessoas costumam dizer ter visto após saírem de uma EQM (experiência de quase morte)!... Mas a idéia de claridade, do que é iluminado, não se restringe apenas a simbologias como essas. A luz é muito mais: como sugere o Gênesis – que a instalou no começo dos começos –, ela é essencial à vida! De fato, a Ciência mostra que sem a luz do Sol não haveria vida na Terra. A propósito, o Sol!... E a Lua! É preciso falar algo mais sobre o significado do resplendor?

Enfim, da sua mente à sua casa ou ao seu planeta, LUZ ( = CLARIDADE) é energia pura e poderosa para a sua vida! Aproveite-a! Abra as janelas e deixe a luz do Sol entrar!

Por Sayonara Salvioli

P.S.: Eu estava com este texto escrito, prestes a ser publicado aqui no blog, quando houve o apagão!... Coincidências metafísicas ou não, os exemplos lembrados só vêm fazer coro a uma necessidade, conceitual ou prática, que temos: LUZ, em todos os sentidos – no conteúdo e na vida!

sábado, 31 de outubro de 2009

Desinventaram o relógio de pulso?


Acho que já falei aqui no blog que Santos Dumont encomendou o primeiro relógio de pulso a seu amigo joalheiro, o francês Louis Cartier, o mesmo da griffe de relógios, fundador da famosa joalheria. Na ocasião, segundo nos relata a história, o gênio da aviação inventara a parafernália ultramoderna porque estava cansado de usar o tal relógio de bolso... Afinal, a antiga geringonça requeria um tempo para ser tirada do bolso, sem contar que muitos modelos ainda tinham uma tampa que precisava ser retirada para que se pudessem ver as horas!... É fácil imaginar que isso não era nada cômodo para quem saía por aí dirigindo máquinas voadoras!
Muito bem, o tempo passou, e parece que as coisas foram revertidas: agora as pessoas deixam de usar o relógio de pulso, e, mesmo com todo o incômodo, preferem abrir a bolsa ou a mochila para tirar o celular e ver as horas!... Experimente, na rua, perguntar a alguém "que horas são"... Verá que a pessoa logo levará a mão dentro de uma bolsa, tateando até achar o celular, a fim de verificar a quantas anda o tempo e responder à sua pergunta! O que aconteceu, afinal: desinventaram o relógio de pulso?! Sim, hoje você pode contar nos dedos as pessoas (privilegiadas, por sinal) que mantêm o uso do relógio; o marcador do celular é hoje o novo design de ponteiros-cronômetros!


E o grande paradoxo disso tudo é que a tecnologia – que, primordialmente, deve servir para tornar as coisas mais práticas – acabou invertendo o jogo dos valores, e, neste caso, traz de volta um hábito antigo de se buscar num bolso ou bolsa algo que, há mais de um século, já se podia trazer, fácil e acessível, visível no pulso!


Lembrei-me que, na infância e na adolescência, eu colecionava relógios e – mais que isso! – via o artefato-jóia como peça fundamental do vestuário e, acessoriamente, um elemento consagrado do modismo. Mas o tempo passou, e – com as novas tendências – temos hoje aparelhos pós-moderníssimos que exercem, entre mil outras, a função de relógio.


Às vezes me pergunto sobre que categorias de pessoas mantêm o uso do convencional relógio de pulso. Mas não posso responder com a precisão britânica de um francês (Cartier... risos), visto que o utilitário ainda se encontra em pulsos mirins com adornos cor-de-rosa, em pulsos aristocráticos abaixo de um rosto sisudo ou em pulsos rotineiros que, na emergência do trabalho, carregam no braço o fiscal das horas!


Paralelamente, não me furto a pensar na plausibilidade de uma diminuição de mercado, já que hoje a humanidade aprecia de tão diversos modos o fascínio do tempo marcado!... Não vemos na atualidade, por exemplo, um modismo tal que mexa em estruturas nesse sentido... E tal nem mesmo poderia se dar! Até porque tal impacto já teve lugar há mais de cem anos, quando uma nova febre agitava Paris: o Santos – protótipo feito por Cartier especialmente para Santos Dumont – havia aderido à reprodutibilidade em círculo nobilíssimo: o novo adereço adentrava os salões da alta roda masculina parisiense (sim, porque o relógio de pulso feminino já tinha sido inventado umas décadas antes)... E o design da obra de Cartier, seguindo inspirações do gênio brasileiro, era um tanto diferente e mais que inovador: uma caixa de metal, retangular, e alças de couro. Um deslumbre – e funcionalíssimo! – para a época! Louis Cartier passou, então, a comercializar o protótipo em sua famosa boutique na Rua de La Paix. E o modelo se consolidou na história da relojoaria... Tanto que, mesmo hoje com as tais cibernéticas invasões (celulares, iPhones, iPods), ainda há lugar para a tradição elegante de um legítimo Cartier. Um modelo tradicional ao estilo Santos, lançado em 2009 (mais de um século depois!) – com caixa de carbono e pulseira de lona –, por exemplo, é adquirido por seus apreciadores pela bagatela de R$20.330,00. E as pessoas nem usam mais relógios!...

Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Manias & excentricidades






Não é preciso sofrer de TOC para que se desenvolvam manias... Creio que todos temos um pouco disso, pois é inerente ao humano a característica do condicionamento, uma tal reincidência sistemática de hábitos.O problema da mania na extensão das compulsões, sem dúvida, vai gerando distorções psíquicas. Naturalmente falo sem embasamento científico, aqui expressando tão-somente a minha experiência na área (risos). Mas há também aquelas manias engraçadas que tornam o nosso dia a dia mais divertido, e nos descontraem nas relações com outras pessoas. Afinal, quem não tem um parente excêntrico ou um amigo com manias estranhas?
Eu, por exemplo, tenho manias alimentares pouco usuais: adoro comer alho cru; sou fã de cebola crua, também. A coisa é tal que chego a provar molhos às colheradas, para o espanto de Verônica, que os prepara já em quantidade maior do que para uma simples salada. A coitada fica apavorada quando vê o nível de prazer gustativo com que faço ingestão do produto!... Minha filha, no campo alimentar das excentricidades, já gosta dos sabores azedos: adora limão no estado bruto da matéria, em quantidade e com nível intenso de acidez.
Tenho outras manias e preferências gastronômicas esquisitas, mas sofro também de outros hábitos que fogem ao usual, como o de sair de casa sem a chave... da casa! Felizmente já melhorei bastante. Mas quando me mudei para o Rio, vez por outra ficava “do lado de fora de casa” por haver saído sem colocar a chave na bolsa... Batia a porta... e estava trancada ao contrário! Mas nunca detectava na hora, é claro! Saía de casa com a mesma evasão mental de sempre, com a cabeça na lua da minha pauta diária... Só percebia o autoembuste quando, de volta a casa, procurava a chave na bolsa... e nada! Cadê chave? Resultado: especializei-me em localizar e contratar serviços de chaveiro a qualquer dia e a qualquer hora no Rio de Janeiro, aí incluindo domingos e feriados. Também aprendi a pechinchar com os chaveiros, pois eles – vendo a sua aflição de estar do lado de fora de casa – pesam a mão e cobram os olhos da cara!... E o detalhe maior dessa história é que o “profissional que tem na mão a chave da sua casa” faz isso com um pé nas costas, num átimo! Em menos de dois minutos ele abre aquela tranca que, aos seus olhos, por uns minutos parecia quase irreversível, impossível de abrir! O cara ainda abre um sorrisinho cínico, como se mostrasse que salvou a sua vida em alguns segundos.. e aí, dá-lhe preço alto! Foi por isso que acabei aprendendo a refutar o valor cobrado, me manifestando:
– Mas foi tão fácil para o senhor fazer isso! Por que vai me cobrar tanto?
Minhas reivindicações, no entanto, não valiam muita coisa; apenas geravam um abatimento no preço elevado de liberação da porta de casa. Porém, após tantas peripécias nesse sentido, hoje não mais passo por isso: descobri a fechadura com bola fixa! Yuuuhuu! Bola fixa... Já ouviu esta locução substantivo-adjetiva? Pois eu não conhecia também. Por que ninguém me falou nisso antes?
Outra mania que tenho é a de recomendar restaurantes para os amigos e visitantes. A coisa funciona assim: você me visita, e eu o(a) levo a um lugar de minha preferência, e ainda faço mil outras recomendações paralelas... Tenho noção disso. Mas sem noção mesmo é a minha prima Cíntia, que, se você a visita, ela lhe mostra todas as farmácias e clínicas do entorno. Motivo: tem fissura por inovações em medicamentos e tratamentos clínicos, de qualquer especialidade, inclusive opções alternativas. Ela diz:
– Olha, naquela rua ali tem uma clínica de fisioterapia que é óóótima... Lá eu faço Pilates e RPG três vezes por semana! É uma maravilha! Ah... volta um pouco, Saulo, volta, volta... aqui, Sayonara, está vendo que fachada bonita? Aqui eu venho aos sábados para fazer uma massagem m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a com pedras quentes do mar Cáspio! Um luxo... E aquela farmácia ali, menina, uma coisa: preço bom e tem de tudo: produtos de reformulação estética, farmacologia de homeopatia e qualquer item de alopatia! Cada produto com componentes de ervas que você precisa ver! Compro tanto lá, Seu Romualdo me adooora... queria até que eu abrisse uma conta!
Mas as manias de Cíntia não param por aí: ela chega a ser exímia conhecedora de tudo de novo que surge no âmbito. Certa vez, peguei a agenda da semana dela, e não contive as risadas enquanto lia. O planejamento da semana marcava para todos os dias, em cronômetro religioso, as seguintes programações: segunda-feira – geoterapia (tratamento holístico com elementos da terra); terça-feira – musicoterapia (com um musicista acadêmico da World Federation of Music Therapy); quarta-feira – talassoterapia (tratamento com água do mar); quinta-feira – cinesioterapia (tratamento baseado no poder curativo do movimento); sexta-feira – helioterapia (medicina dos raios solares).
É ou não excêntrica a minha prima Cíntia? Ela ainda reclamou que aquela semana não lhe permitiria, por motivos tais e tais, fazer seus outros tratamentos, como cristalterapia, hidroterapia e cromoterapia. E defendeu veementemente a helioterapia, com o seguinte discurso:
– Pois é, ficam falando por aí que o sol prejudica, prejudica... pois sim: os raios do sol combatem todos os problemas respiratórios e matam qualquer tipo de germe, sabia? Mas eu não fico só no método holístico, não, sabe? Também não abandono certas normas tradicionais de cuidar do organismo, mental e fisicamente; não dispenso meu clínico alopata e um bom psicoterapeuta, dos freudianos!
Mas, em meu círculo familiar, a campeã mesmo é a minha mãe! Tal não mais se classifica em hipocondria, visto que já se cristalizou a sua mania por remédios! Isso mesmo: em sua casa não há uma farmacinha como nas demais; ela não armazena remédios simplesmente numa daquelas maletinhas com uma cruz vermelha na tampa. Não! Existe lá um cômodo (inteiro!) que nomeei como almoxarifado de remédios. Isso mesmo! Tal como num almoxarifado funcional de uma empresa, lá ela exerce todo o seu talento organizacional (na verdade, ninguém organiza nada melhor do que ela!), na medida em que assegura que o remédio adequado seja encontrado, na devida quantidade, em local específico, no momento exato de sua necessidade! Seus critérios rigorosos de armazenamento permitem à farmácia doméstica conservação e qualidade em produtos de alopatia, homeopatia, fitoterapia e similares. Aposto que você já adivinhou o quanto ela e minha prima Cíntia são amigas! Não imagina o quão excitante à diversão é uma conversa das duas!... tsc tsc tsc...
Mas, cá entre nós, quem sou eu para falar de excentricidades: troco a noite pelo dia, como coisas atípicas e sou capaz de preterir um interessante passeio em polo turístico a uma ida, na própria rua, a um restaurante alemão ou a uma feira gastronômica de tendências no Cais do Porto!... E no tocante a remédios, tenho uma mania horrível: jogo todos fora! Na infância, ante as insistências da minha mãe, que estipulava horários para que eu tomasse vitamina A, vitamina, B, C, D, E F, K (e do alfabeto inteiro!), eu os presenteava às plantas.. Os canteiros do jardim viviam cheios de cápsulas bicolores! (risos)... Piores ainda que essas excentricidades todas são as suaves (bem suaves mesmo, ainda bem) fobias que apresento. Mas isso é matéria para outro e outro post...


Por Sayonara Salvioli
P.S.: As imagens que você vê acima são: alguns dos numerosos potinhos de remédio que a minha mãe coloca na minha mala cada vez em que a visito... e um momento- termoterapia da minha prima Cíntia!...



segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Radiografia de brinco



Dia desses, eu estava sozinha num restaurante de shopping, almoçando tranquilamente, com os pensamentos elevados à evasão, quando uma voz me interpelou:
– Desculpe interromper... Posso tirar uma radiografia do seu brinco?
– ???
Olhei para a mulher: era ruiva, alta, e apesar de ostentar bons trajes e adereços, tinha qualquer coisa de primária. Também exibia certa desfaçatez.
Meio sem graça, percebeu que precisava se explicar:
– Ah... Desculpe o mau jeito. Meu nome é Andréa Couto; sou designer de joias – e tirando o cartão da bolsa – Tenho uma loja de bijouterias aqui perto, o endereço tá aqui... E eu a-d-o-r-e-i o seu brinco! E quero tirar uma radiografia dele!
          Designer de joias ou de bijouterias? E... como assim radiografia de um brinco?
Naquele instante, só vinham à minha mente definições usuais do termo radiografia (em Radiologia, processo que permite obter, numa superfície sensível, a imagem de um objeto em raios X)... Mas também me ocorreram outras ramificações de semântica para o vocábulo, também usado para se designar uma espécie de detecção de uma instituição, de um eleitorado, de determinado perfil etc. Mas radiografia de brinco era uma expressão inusitada, pois como poderia alguém desejar verificar a estrutura interna do brinco? Talvez a ideia fosse identificar a natureza de suas pedras? Não, não pode ser isso; não deve ser uma curiosidade típica de ourives ou algo parecido. A menos que seja...

– ...Uma xerox do seu brinco, entende? – tornou a mulher.

– Ahh... entendo! Pode tirar, sim... claro! 
 – eu disse, meio sem jeito. 
– Olha, você pode até vir comigo, tá? Sei lá... no mundo de hoje, você pode até achar que quero afanar o seu brinco – falou a desconhecida interlocutora, dando-me tapinhas no ombro.
– Imagine! Não estou pensando isso.
– Ah, mas pode até pensar... Um brinco lindo desses! – e abaixando a voz, perguntou:
– É joia?
– Não; é bijou.
– Ah, sim, então eu posso levar?
Meio sem jeito, respondi tirando um dos brincos. Não pude deixar de perceber que as pessoas da mesa ao lado nos observavam, e o garçom que atendia à minha mesa não parava de passar para lá e para cá, tentando entender a estranha abordagem da desconhecida.
Andréa Couto arregalou os olhos quando viu que eu lhe estendia o brinco, e me puxando pela mão, disse:

– Venha comigo! Tem uma papelaria aqui nesse piso mesmo, aqui do lado.

Voltei, peguei a minha bolsa de mão, deixei minha executiva na cadeira onde estava, disse ao garçom que já voltava (sou conhecida da casa) e acompanhei a mulher. Entre o restaurante e a papelaria, ela me explicou melhor a situação:
– Sabe, quando vejo um brinco de que gosto muito costumo reproduzir, fazer outro igual, sabe? Mas esse seu é muito sofisticado, e eu achei melhor vencer a vergonha e te pedir emprestado pra uma xerox...

 Eu só assentia com a cabeça. Mas não pude deixar de comentar (alertar):

– Reproduzir, copiar... Olha, não quero ofender, de jeito nenhum. Mas não gosto desses verbos, mesmo! Por que não experimenta criar? Nada como a originalidade, não acha? Além disso, o artista/designer que criou a joia ou bijou não irá gostar, certamente, de ver sua obra reproduzida por aí... Aposto que você também não gostaria de ver um design seu em alguma outra vitrine... já pensou?

A impostora (?) não se fez de rogada:

 – Que nada! Jogos do comércio.

Bem, eu quase falei que ela estaria incorrendo em crime, mas vi que não poderia ajudá-la  a   manufaturar uma nova ética para si. E meio sem que entender por que motivo (Ah, o meu brinco já estava com ela), segui no fluxo para a papelaria do segundo piso...
Chegando à loja, a criatura pediu “uma xerox deste brinco”, e o balconista a olhou com estranheza, mas atendeu a seu pedido de cliente, naturalmente. Quando o brinco já ia ser “radiografado”, a designer se dirigiu a mim, novamente:
– Desculpe abusar, mas você não poderia tirar o outro brinco? Vai ficar mais bonitinho... E também pode haver algum detalhe melhor em um que no outro, e isso pode facilitar a confecção da cópia do brinco, entende?

Entendi e tirei o segundo brinco, passando-o às mãos da personal designer. Depois, fiquei ali parada, disfarçando um risinho incontido de canto de lábio. Não consegui conter o riso, porém, quando ela reforçou ao atendente:
 – Por favor, faça uma cópia, para ela levar também – referindo-se a mim.

Voltamos ao restaurante, onde ela antes tinha ido almoçar, diga-se de passagem. Até que rimos despretensiosamente, e Andrea pareceu-me, então, bastante simpática, apesar de um tanto inconsequente... Afinal, saía a copiar arte alheia por aí. Bom, eu ainda não podia imaginar que tipo de arte seria essa, mas era alheia, e isso, por si só, condenava a minha interlocutora da vez. Mas tentei não armar a teia inflexível   do julgamento. Só exercitei um pouquinho a minha percepção do humano...

Como antes eu já estava terminando de almoçar, pedi apenas uma sobremesa. Mas a designer, que agora dividia a mesa comigo, almoçava a velozes garfadas:
– Não repare a minha afobação, mas hoje não tomei nem café da manhã, por causa da correria. Estou com fome mesmo! – e ria como que de si mesma.
Levantei-me e já ia me despedindo quando a nova conhecida perguntou:
– E você, o que faz? Qual a sua profissão?
– Sou escritora. E já fiz uma radiografia sua para o meu blog.
O leitor sabe que procedi a tal raio X desde o começo da narração; desde o primeiro momento, fiz o meu juízo de valor. Mas a mulher não sabia. E, apesar de antes aparentemente tão descontraída, revelou-me num só olhar um claro temor. Li nas entrelinhas como que um pavor seu de ser descoberta, desmascarada em sua identidade (será que falsa?!), como se a nós, escritores, fosse facultado o dom de fazer radiografias de almas alheias por aí, perscrutando suas verdadeiras intenções, suas frustrações e insuficiências, enfim, seu medo de serem vistas tal como são, sem qualquer possibilidade de disfarce ou autossublimação. E será que não podemos mesmo?


Por Sayonara Salvioli

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um peixe dentro d'água



Dizem que os piscianos precisam morar perto da água. E é verdade. No meu caso particular, andei analisando os lugares em que vivi e não deu outra: sempre me banhei de paisagem – e aquática!
Nasci numa cidade banhada por um rio. Vivi os primeiros anos numa localidade bipartida, ou seja, com um rio no meio. Lá morei até os 19 anos, e costumeiramente fazia poemas em honra ao lugar, olhando ... uma ilha próxima, um rio passante, do outro lado a capela... Depois, me estabeleci em nova cidade dividida por um rio: duas margens, duas bandas; apesar de una, performaticamente (naquele tempo) quase duas cidades. Na medida dupla de peixes, signo zodiacal que vem em duo, molhado pela água e transpirando sensibilidade pelas guelras!... Exceções há, porém poucas.

Anos e anos depois, vim morar perto de uma grande banheira, onde me senti acolhida, ante a visão de uma baía à minha frente. Da janela, contemplava belos veleiros que, a certa distância, pareciam barquinhos com uma vela branca no mar... Também observava os coqueiros e as gentes na praia. Mar, chuveirão na areia, água de coco, sorvete e picolé no grito aquoso do ambulante!... Sete anos após, segui adiante e vim parar precisamente em frente ao mar! Diante de minha janela, saudei o casamento do oceano com o horizonte, ambos vestidos de intenso azul!...
E aqui estou a molhar a sua leitura com as imagens líquidas de minhas palavras! Água nos meus sentidos e no meu relato... O pisciano é assim: necessita de um aquário para viver! Até o seu olhar, por vezes lânguido, noutras brilhante, apresenta uma superfície fragilmente aquosa... Tudo em Peixes é água: até os seus sentimentos! Estes, ainda mais: ondulantes, delineiam-se liquidamente e adquirem a forma de seu recipiente. Peixes denotam muitas águas: águas de março e fevereiro desembocando nos sete mares da emoção universal... Ah, evasões líquidas à parte, somos mesmo um mar de histórias!...
Com todo esse fluxo de emoções e pensamentos, porém – próximos à superfície da água – precisamos mesmo de tal contexto para darmos vazão à nossa profundidade existencial. E sermos realmente felizes perto daquilo de que gostamos e que nos dá vida. É verdade!... Faça uma busca mental de seus amigos piscianos, e contabilize quantos deles moraram ou moram perto d’água... Só não o fazem aqueles que efetivamente não o conseguem! Não que isso seja algo planejado pelos nativos de Peixes, mas simplesmente porque seus caminhos corredios o levam a tais destinos, na maior parte das vezes... Em alguns casos, ainda que inconscientemente, escolhem profissões relacionadas ao mar, a algum reservatório ou similares (oficial da Marinha, oceanógrafo, arqueólogo submarino, salva-vidas etc.)... Por isso, se pisciano, é melhor que você procure um lugar perto d’água para viver (mas de verdade mesmo!) e, talvez, um ofício também ligado à água... E, quem sabe, a sua vida não passará a fluir corrediamente e com liquidez?! (risos)...

Enfim, é a água a fonte - o refúgio natural de um ser de Peixes, que literalmente transpira água por todos os poros!

Por Sayonara Salvioli

domingo, 12 de julho de 2009

Julho: o arauto da mudança


Segundo a Angelologia, quem nasce sob a influência do anjo Manakel possui inspiração para as artes, com destaque para a poesia. Algumas especificações de perfil / designações deste anjo sobre o protegido referem-se a seu dia de sorte (no meu caso, 7), ao horário em que se encontra Manakel na Terra (entre 21h40min e 22 horas) e ao mês de mudança (julho). Concordo com tudo isso, exatamente por sempre haver feito poesia (lembro-me de versos de quando tinha sete anos de idade), por ficar sempre feliz e esfuziante à noite (especialmente no horário de passagem destacado) e, finalmente, porque mudanças – na exata acepção do termo –, sistematicamente, têm ocorrido em minha vida no anunciador e preciso mês de julho.

Também concordo – é claro! – quando leio que pessoas nascidas sob tal influência contam com uma proteção especial de Deus, afinal, como o leitor sabe, já sonhei que – em determinado momento – uma corte de 640 anjos me circundava!... Não preciso, pois, dizer mais nada (risos angélicos)...

E especificamente sobre o mês da mudança, segundo a regência do anjo da data do meu nascimento, aqui estou para comprovar a veracidade de tal revelação, já que – invariavelmente – as mudanças mais substanciais ocorrem para mim a partir do mês de julho. Às vezes até parece que meu ano começa em julho, dada a reincidência de fatos que me mobilizam a partir do sétimo mês do calendário anual!

E, se é para mudar, que a metamorfose se opere do melhor modo: novidades visuais e de entorno são bem-vindas, na medida em que até as coisas físicas precisam mudar para acompanhar o compasso da alma. Sim, sou movida pela completa animação dos sentidos (anima = alma). Acho que imprimo minha alma em tudo que sou e faço. E penso que os lugares que habito e as coisas à minha volta também necessitam de alma para se coadunarem com a minha vivência/expressividade interior. Em outras palavras, tudo precisa de anima (animação) para dar tom e vida ao mundo. Contrariamente, o estático petrificaria a matéria. Divagações metafísicas à parte, quero mesmo dizer que, na cadência da mudança, busco o sentido das coisas, pois acredito nas destinações que, magicamente, nos são apresentadas, por vezes mudando parte do curso de nossa história.

Em penúltima análise (nenhuma será a última), acho que a face anima da vida pode estar, dentre outras coisas, nesse caráter transitório que modifica ou substitui nosso habitat costumeiro, deslocando-nos para outra paragem, seja esta uma serra, um vale, um planalto ou um balneário... Em qualquer estância, afinal, que a influência maravilhosa de Manakel possa abençoar meus atos e intensificar o melhor tom de minhas mudanças pessoais!...

Por Sayonara Salvioli

domingo, 28 de junho de 2009

ROTATIVIDADE ou ROTA CÍCLICA





E do que é feita a vida senão de rotatividade, de circulação e engrenagens mudando, a todo momento, a face do mundo? Sim, a mudança possui o caráter meritório da renovação, do aprimoramento e do ganho. É a velha questão do trapézio: em vez de temer e não pular, é preferível calcular a distância e arriscar o salto da vitória mais próxima. Afinal, se você não pular, nunca poderá saber os céus que ganharia!
Como todas as pessoas, comprovadamente, tenho algumas qualidades e muitos defeitos. E manifesto ambas as facetas de minha personalidade. Mas creio que poucas características sejam tão intrínsecas como a minha coragem.  E falo isso sem presunção ou, inversamente, modéstia – pode acreditar!
Sim, leitor: coragem! Isso tenho para ofertar, emprestar ou vender!... Meu temor (que realmente assim possa ser chamado) refere-se apenas a uma esfera superior, a desígnios maiores. Excetuando-se isso, o medo é termo que não se lavra em meu livro de memórias.
Assim é que não tenho medo de fantasmas ou de mudanças. Creio vivamente nas maravilhas que o futuro da cada dia me reserva, e, apostando nisso, sorrio ao acaso com o melhor dos sorrisos de boa expectativa: aguardo sempre o belo, o bom, o mágico que – acredito sempre – sobrevirá!
E a minha personal característica de estar sempre procurando o novo no rizoma das circunstâncias, invariavelmente, me conduz a uma atração permanente pela surpresa, pelo anúncio do por(+)vir, pela notícia desencadeadora de alguma mudança. Por isso, acho que o mundo pode girar em torno do pensamento daqueles que acreditam na mudança – para melhor, é claro! – e ajudam a prepará-la.
Aliando essa minha já afamada coragem à minha já propalada intuição, manifestei em voz alta (a uma prima, no telefone), há alguns meses, que brevemente me mudaria de residência; disse isso como que num lampejo revelador, num anúncio não calculado... Sabe essas coisas que não sabemos exatamente quando acontecerão, mas temos certeza de sua futura consumação? Pois é... Na verdade, eu não havia planejado isso, e nem mesmo sabia conscientemente de tal coisa. Apenas intuía, com o cabal tom das certezas inexplicadas, que brevemente passaria por uma mudança! E especifiquei o tipo e o destino de tal mudança, acredite se puder!
E, realmente, em pouquíssimo tempo se operaram mudanças representativas na minha dinâmica normal de vida: mudei de residência e modifiquei também alguns hábitos, curiosamente ao mesmo tempo.. Ingressei numa fase mais solar!... Na mudança física, rearrumei coisas fundamentais (lembranças altamente memorialistas), me desfiz de tralhas absolutamente desnecessárias, fiz doações, e – como não poderia deixar de ser – adquiri muitas coisas novas. Mudar, porém, não é algo que se refira a reestruturações meramente materiais: mudar implica repaginar uma parte substancial da sua vida, em que lugares, móveis, adornos ou utensílios novos não são os únicos bens de consumo desejáveis. Naturalmente os adquirimos por circunstâncias de adaptação ou aproveitamento do novo espaço, mas também o fazemos porque, de certo modo, é como se estivéssemos nos vestindo de roupagens coloridas e preconizadoras. Sim, mudar pode ser um recado de sibilas: isso pode trazer sorte ou luz, na medida em que é necessário ao homem girar na roda rizomática do planeta, onde nada para ou estaciona para sempre.
Como o para sempre é um prazo muito longo – embora isso seja possível em alguns casos –, filosoficamente, e para algumas situações da vida, prefiro acreditar no ultimato de certos fatos, algo que anuncia um novo fenômeno, alguma modificação decisiva que confirma o fato de você estar num planeta redondo. E a circulação de pessoas ou energias pode ser uma necessidade tão grande a ponto de ser essa rotatividade a mola propulsora de mecanismos vitais.
E o fascínio da mudança é um silogismo de fácil conclusão, afinal quem não gosta de comprar roupa nova, de ir a um lugar diferente, de experimentar novos sabores, visuais e terapias? Que grande motivação não causa uma repaginada no look – principalmente às mulheres no tocante a cabelo (risos) – ou aquela viagem inesperada com hospedagem num hotel que você não conhecia? Sim, é muito bom que nossos roteiros não sejam previsíveis a ponto de sucumbirem ao encanto da surpresa! É necessária uma grande dose de dinamicíssima novidade para alimentar a constância dos dias.
A Terra é redonda, a roda tornou o mundo mais ágil e produtivo, e a moeda precisa circular para seu contínuo posicionamento no mercado. Assim, aliás, pensava uma das figuras mais decisivas do baronato do café no Brasil – Joaquim José de Souza Breves, o Rei do Café. A propósito, certa vez ouvi que ele seria considerado por alguns como o detentor da maior fortuna do país em todos os tempos (proporcionalmente a algum critério estabelecido, não sei bem qual). E ele – possuindo numerosos e vultosos bens, que expandia enormemente, mais e mais ao longo da vida (teria chegado a ser um dos financiadores da Coroa imperial) – era um defensor da natural circulação do dinheiro, sem que seus dobrões fossem alguma perniciosa prisão. Em outras palavras, era um mão-aberta. Chegara mesmo a dizer que a moeda, por ser redonda (referia-se aos dobrões de ouro do seu tempo) precisava circular, girar constantemente, não podendo ser retida, guardada ou poupada inutilmente; ao contrário, necessitava mesmo sair do bolso, sucessivamente, para a ele retornar. Ele era um afortunado empreendedor e negociador que acreditava na rotatividade, no caso, na mudança constante e giratória do destino de seu dinheiro, a fim de que este adviesse, novamente, pela própria força de sua impulsão primeira.
Trazendo o caso para a necessidade de rotatividade de experiências, sensações, atos e lugares – necessidade essa que não conhece barreiras de tempo ou espaço –, concluo que a circulação e a mudança de seu modo de vida primam pela sua renovação pessoal, na medida em que – como na circulação dos dobrões de ouro – nos tornamos rotativos na dinâmica da vida e retornamos ao ponto de partida mais renovados, fortes, recarregados de energia e bagagens de saberes e sentimentos... E cada engrenagem dessa rotatividade vai puxando a outra, simultaneamente aos múltiplos elos que se estabelecem, intercomunicam e harmonizam... Rizomas e hiperlinks no sistema interativo da vida. E sem medo de metamorfoses ou da rotatividade dos pêndulos da existência.




Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A rotina é má companheira



Dona Rotina é uma velha senhora com reumatismo. Nunca fiz nem farei amizade com ela. Amo o colorido descompromissado das horas de liberdade! Essas que não conhecem hora ou impõem tempo exato num determinado evento...
Sempre fui muito responsável, cumpridora de minhas obrigações. Porém, honro meus deveres de modo muito peculiar: escolhendo meus momentos de lazer e minhas horas de trabalho. Também sempre corri atrás do tempo em galope cerrado, e nunca deixando que ele se apartasse de mim de modo muito distanciado. A verdade é que tenho uma história de amor com o tempo; temos uma cumplicidade própria daqueles que se entendem numa simples unidade de cronômetro.
E não pense, meu leitor, que – na minha evasão propositada de horas – deixo que o tempo escorra entre os dedos... Nada disso! Quando vejo que ele está fugindo de mim – impedindo-me ou atravancando minha sagrada missão de ser feliz –, pernas-pra-que-te-quero... acelero o passo, preparo a corrida e o resgato aos laços do meu desejo! Sim, o desejo... Deste sou amantíssima, e com o amigo tempo formamos a trilogia aristotélica da busca pelo bem-estar existencial.

Tomara que você não considere não poder me entender em minhas evasões e ilações. Na verdade, será bem fácil me compreender se você considerar que já correu atrás de algum tempo fugidio... Sim, porque para mim o tempo, mesmo corredio, precisa estar ao meu alcance; tenho necessidade absoluta de ser dona do meu tempo-espaço: senhora do meu lazer, do meu sono, da minha vigília, do meu dever e das minhas horas de buscas metafísicas!...
E quantas divagações e silogismos seriam necessários para qualificar, dimensionar, classificar ou medir o tempo?... Registros após registros com as minhas mensurações temporais e atemporais...
Acho que preciso mesmo – sempre! – me adaptar com suaveza ao universo que me rodeia. Falando de modo mais claro, quero dizer que necessito domar aquilo que acontece à minha volta, posicionando-me com uma vontade altaneira, a qualquer tempo.
Lembrando Drummond e evocando Einstein, eu diria que procuro repartir muito particularmente as minhas fatias de tempo: há a fatia da reflexão, a da obrigação, a do divagar criativo, a da produtividade acelerada, a da conclusão de missões. Sempre levo a cabo o compromisso estabelecido e assumido, mas antes de bordar o meu bastidor com fios de ouro, esquivo-me do tom metálico da hora inflexível... Viajo, faço minhas leituras, assisto a meus filmes, ando pelas ruas, passeio pelo shopping e me permito lautos lazeres gastronômicos antes, por exemplo, de me sentar ao computador por vinte e nove horas seguidas (Sim; eu já fiz isso, por força contratual, mas não com menos prazer: o da produtividade contínua, fluida, abundante!). Posso, com felicidade,  produzir como uma máquina humana – como alguns generosos amigos me qualificam (risos) –, porém, antes, preciso estar feliz e solta, dona da minha decisão e do meu tempo. Após relaxar, passear e inventar um lazer de minutos, sou capaz de uma tarefa de dias inteiros, quase sem interripção! Sou assim: Pronto parâmetro-chavão 8 ou 800 na acepção dos sentidos!
Já ouvi dizer que ninguém faz por muito tempo aquilo de que não gosta. Considere, pois, aquilo que lhe dá prazer e aquelas coisas que você abomina... Estas, com certeza, você acaba por afastar de seu tempo diário. São essas coisas que constituem a tal rotina, vilã do prazer na dinâmica da vida.
No fim de contas – do tempo! –, acho mesmo que o importante, além de reter e atrair para si a largueza do chronos, é tentar subdividi-lo nas diversas escalas das suas intenções: achar lugar e momento para tudo. Como numa ampulheta, não podemos deixar que ele se disperse no nada... É preciso manter o fluxo das areias dos momentos!
E, pela lei dos seus instintos e sentidos, o tempo poderá ser como o gênio da lâmpada para você: o senhor dos seus desejos!... Utilize-o, pois, na medida equilibrada de seus ideais mais fortuitos! E não se esqueça: repudie uma amizade com Dona Rotina! Passe léguas distante de suas chibatas de couro!

Sayonara Salvioli

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Uma corte de 640 anjos


Seiscentos e quarenta anjos pairam sobre a minha cabeça!...

O que é isto?! Louca evasão de ideias metafísicas? Não. Apenas uma fala de um de meus sonhos abençoados. Sim, eu os tenho! A propósito, já reafirmei aqui (cinco, seis, sete vezes?) que acredito no poder oculto do onírico e, naturalmente, sou sua adepta. Costumo lembrar-me de muitos de meus sonhos, com imagens intensas, vibrantes e detalhadas... Não sei o que diriam Jung, parapsicólogos ou espiritualistas sobre isso, mas creio que enquanto durmo me conecto com uma dimensão especial e – ao que parece – converso com anjos, deles recebendo mensagens, ideias cifradas e bênçãos.
Num outro post sobre intuição a que me referi – que fiz há cerca de seis meses (datado de 26 de dezembro de 2008... leia!), eu ressaltei que a minha poderosa intuição não apenas me alerta quanto a fatos ou situações de perigo, como também me traz notícias adiantadas de coisas boas, numa sensação leve e de regozijo que é capaz de antever momentos mágicos... E que, posteriormente, eu narraria isso aqui. Pois bem, fiz isso no post anterior e repito ora a dose, lembrando que tais “boas antecipações intuitivas” constituem fatos já comprovados em minha escala de felicidades. Porém, descrever com profusão alguns desses momentos mágicos seria matéria para livros e não apenas para posts. Por isso, vou ater-me à narração da vez, magnífica sensação que tive há algum tempo... Sonhei que estava numa grande casa (a casa da minha infância, com a qual sonho muito), junto de minha mãe e de um simpático senhor – com cara de anjo tornado homem – que era angelólogo (especialista em anjos). No meio de suas explanações sobre o assunto, ele disse à minha mãe, referindo-se a mim:
– Neste momento, uma corte de 640 anjos a acompanha.
Minha mãe, na mesma hora, repassou-me o anúncio. E eu – com o ímpeto que me é peculiar – me aproximei do suposto anjo terreno e perguntei:
– Como assim... 640 anjos?! Isso é possível?
O homem assentiu com a cabeça, com um sorriso entre o célico e o complacente. E acrescentou:
– Agora mesmo eles estão pairando sobre a sua cabeça. Isso tem acontecido permanentemente.
Em outro arroubo, arrisquei nova pergunta:
– E qual é a média de anjos por pessoa? Em casos assim, quantos anjos costumam acompanhar um ser humano?
Lembro-me com perfeição imagística dos olhos do angelólogo me fitando e dizendo:
– Minha filha, há pessoas que não têm nem mesmo um!
Fiquei impressionada. No sonho e na realidade. E, em ambas as dimensões, agradeci a Deus pela concessão de tamanha beleza em palavras tão profícuas, aparentemente sinais de dádivas.
Ao longo da vida, já sonhei – neste caso, algumas vezes apenas – com o Divino Superior que nos rege. Estas posso aqui contar facilmente, pois dentre as lembranças mais importantes, foram somente três vezes...
Na primeira (emociono-me ao narrar), sonhei com Jesus Cristo. Ele estava em minha casa e me dirigia uma grande bênção com as mãos (O entendimento veio cerca de um mês depois: recebi uma grande dádiva, na ocasião, algo que eu almejava havia bastante tempo).
Na segunda, simplesmente restou a lembrança de que havia sonhado com Deus (acho que aí, num relance, cristalizou-se na concepção de meu pensamento a imagem de Deus-pai, tal como é pregada na concepção difundida da Santíssima Trindade). Foi um sonho naturalmente lindo, cheio de luz! Naquele mesmo dia aconteceu algo maravilhoso, e eu pude facilmente compreender a magnitude do sonho e seu reflexo imediato em minha vida.
Da terceira vez, sonhei com essa maravilhosa e suscetível revelação da presença angelical, multiplicada por 640 vezes!!! Algo esplendoroso!... Pois bem, como sempre, fiquei esperando algo fora do comum acontecer, algo muito bom... E daquela vez, meu caro leitor, a feliz notícia oculta levou o prazo exato de uma semana para se revelar: exatamente sete dias depois entendi o motivo!
Analisando melhor o foco deste post – meu belo sonho angelical de algum tempo atrás –, chego apenas a uma conclusão motivadora: a certeza de que tenho uma poderosa proteção, tal como é interpretada a aparição de anjos em sonhos (especialmente tantos deles!). E novamente agradeço aos Céus, pois sempre é tempo de agradecer e louvar a Magnanimidade Divina.
Quanto ao poder extraordinário das revelações e à exacerbação numérica – ou célica – de meus 640 anjos (o leitor não imagina como isso me deixa com a sensação de protegida! - risos abençoados), são elementos ocultos que me fazem lembrar o bardo inglês: “Há (bem) mais coisas entre o Céu e a Terra do que julga nossa vã filosofia.”

Por Sayonara Salvioli.

domingo, 31 de maio de 2009

A lei da véspera



Não sei se todos poderão me entender (ou acreditar), mas – dentre outros princípios intuitivos – instituí para mim a teoria/lei da véspera. Trata-se do seguinte: um dia antes de acontecimento importante, invariavelmente, passo pela já instituída revelação da véspera... É um misto de sentimento e aviso – quase como um ritual inconsciente de preparo – que me faz ficar inquieta, alerta, às vezes estranhamente eufórica... Falo, ora, não apenas da minha afamada intuição de sempre (esta pode me segredar algo alguns dias antes); refiro-me, especificamente, ao instituto particular da intuição da véspera: aquilo que me é revelado ou "adiantado" exatamente um dia antes do fato!
Não vou aqui narrar o que se sucedeu a cada uma dessas vésperas importantes, pois já disse – e reafirmo – que não se trata este blog de um diário convencional. Apenas matizarei a narrativa com leves pinceladas de realidade, ao pintar algumas nuances retratadas na tela do sempre. Sendo mais extensa, descortinarei apenas, quase na totalidade, a tela mais importante: uma véspera inteira, constituída do dia e da noite imediatamente anteriores ao dia do acontecimento...
Era o dia 5 de março de 1988. A noite houvera sido agitada, e eu – naturalmente! – não dormira nada. Sentia algo extraordinário e avisei à minha família que algo iria acontecer. Não estou bem. O dia amanheceu com aparente normalidade, mas logo em suas primeiras horas mostrava a que veio... Não seria um dia como os outros, com toda a certeza. Liguei para o médico da família, que – sobressaltado com o meu relato, por via das dúvidas, foi até a minha casa, examinou-me e diagnosticou: “Aparentemente não é nada, mas fique atenta a partir de agora e, de qualquer modo, vá até a Casa de Saúde mais tarde [Não sou hipocondríaca! Era caso mesmo de se chamar o médico, como verão adiante!].
Sei que você não tem dúvidas quanto ao meu estado de alerta o resto do dia. Mas aquilo também não impediu o que eu havia programado para aquele sábado, especialmente porque para aquela manhã havia um agendamento desejado. Não sou uma pessoa meramente fútil e vaidosa em momentos de seriedade (risos), mas eu estava com hora marcada com um grande figurinista – o meu eterno estilista, o amigo Ewaldo Xavier –, compromisso ao qual eu não faltaria, por certo! No atelier de meu querido designer de moda, eu tive prenúncios de uma véspera alegre, entre previsões e modelitos desenhados para mim naquela fase especial de minha vida (já fim de fase, o que não impedia a criação dos tais figurinos naquele momento)... Pois bem, enquanto Ewaldo desenhava lindos modelos com seu grafite artístico, eu conversava com a amiga Kiki, que também fazia suas sugestões de bom gosto. De repente, comecei a sentir dores... as dores do parto! Tratava-se da véspera!... Passadas algumas horas de um dia agitado, dirigi-me à Casa de Saúde João XXIII, onde nasciam todos os bebês da família, diga-se de passagem. E a noite chegou com seus momentos silentes de véspera... No dia seguinte, no despontar da aurora, às seis horas da alvorada, minha filha nascia! Tratava-se da história de véspera mais feliz da minha vida!...
Apesar de já termos quase precisas ultrassonografias no final dos anos 80, ainda assim, a minha intuição se antecipou à Ciência... Houve um erro na data prevista pelo exame: o nascimento se daria entre 25 de março e 8 de abril... Ledo engano a tecnologia de imagem: Raquel chegou, linda e vigorosa, cerca de um mês antes!... E eu pressenti (e chamei o médico, alertando-o) a chegada do grande dia exatamente pela detecção da lei da véspera!... E acredite, leitor, minha previsão não foi de natureza puramente orgânica, por simples ocorrência de dor física. Não, absolutamente! Não pressenti a situação de iminência apenas por estar grávida, afinal um documento científico, um exame, respaldava tranquilidade de tempo nesse sentido... O que eu senti foi a velha e boa intuição – que sempre me acompanhou – da véspera!
Imagino que você imagine que, para eu relatar as minhas tantas incidências de véspera, eu precise escrever um livro... e não apenas alguns períodos em minha lauda eletrônica. Certamente! Por isso, vou resumir agora para você apenas alguns pontos de uma outra véspera da vida... Em meados dos anos 90, tive uma noite agitada, na qual não preguei o olho sequer um minuto! Desta vez, sabia que se tratava de um perigo, e – incrível! – sabia com quem, só não sabia o quê! Cheguei a manifestar: Está acontecendo algo com a minha amiga Goretti. Pasme, leitor: estava!... No dia seguinte, liguei para a casa dela (descobri o telefone... não nos víamos havia anos!). A discagem durou insistentes segundos de aflição, após os quais seu marido atendeu. Perguntei por ela; ele disse: "Você não vai poder falar com ela, Sayonara." Enregelei, quase morri de medo! Mas ele continuou: "Ela acaba de dar à luz uma linda criança, mas passou muito mal. Agora, felizmente, já está bem..." Ufa! Meu Deus! Minha querida amiga de adolescência, antes tão próxima, estava tendo um filho – sem que eu tivesse notícia, a quase 300 Km de distância! Mas eu detectei o fato... Soube-o na véspera!
Houve também outras vésperas que comentarei levemente aqui, dentre as quais uma que se deu praticamente no raiar de 2000... Esta foi um daqueles acontecimentos de contos de fada... E tal narração esta pauta não caberia, por certo. Vou só contar – em três ou quatro orações – o que ocorreu na véspera: primeiro, ouvi um sábio relato de um acontecimento extraordinário, cujo final me fez desejar ver surgir algo similar. Acho que a fadinha dos desejos passava por ali... E a noite da véspera fez meu coração bater galopantemente, sem saber por quê. Parecia que ele ia saltar pela boca!... O dia amanheceu e eu comprei um bouquet de rosas cor-de-rosa. Depois daquela véspera e daquelas flores matinais, teve lugar no então dia-presente um dos fatos mais marcantes da minha vida. O dia anterior havia sido a véspera de algo assinaladamente importante!
E ainda merece menção uma véspera quase atual, que aconteceu outro dia... Pressenti um perigo na madrugada anterior e cheguei a adiar uma viagem. No dia seguinte – é claro! –, algo aconteceu... E, mais uma vez, passado o perigo expresso pelo alerta, confirmou-se a infalibilidade do instituto da minha teoria-lei da véspera.
Vésperas também há em que grandes coisas – em poucos minutos dormidos – que se me revelam em sonhos... Imagine o poder do onírico unido à lei da véspera!... Asseguro-lhe, leitor: é coisa para sibila nenhuma “botar defeito”! Mas isso é matéria para outro e outro post...
Por Sayonara Salvioli.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A vez dos Martinez

Fotografia de meus bisavós Henriqueta Salvioli e João Martins (na biblioteca da prima Angella)

Imagine uma terra que possui como característica um menor número de dias nublados, recebendo mais de três mil horas de sol durante o ano! Some a isto um mar muito quente, límpido, vivamente azul, às portas do Mediterrâneo!... E além da orla maravilhosa – que é a mais extensa de todo o litoral andaluz –, a região ainda conta com o encanto paradoxal de paisagens desérticas, painéis do tipo western, não por acaso cenários cinematográficos de clássicos como “Por um punhado de dólares” e “Lawrence da Arábia”...
Com a descrição, você certamente já aportou nas terras e mergulhou no mar de Espanha, neles reconhecendo o fascínio de Almeria, província da Andaluzia. Tais paisagens, apesar das terras pouco férteis do Deserto de Tabernas, por exemplo, guardam a história de uma fecunda proliferação de... humanos! Isso mesmo: falo dos inúmeros descendentes dos Martinez, dentre os quais me incluo.
Embora desse clã eu não possua, ainda, um arquivo informativo de monta – como o dos Salvioli –, disponho de alguns documentos de família que dão conta das minhas raízes plantadas também naquele solo... Estas provêm de meu antepassado Juan Martinez Martinez, um legítimo andaluz.
Você deve estar se perguntando se, afinal, sou descendente de italianos ou de espanhóis, e respondo: de ambos os povos! Ressalto, porém, que em mim fecundaram bastante as sementes de Itália, com sua vibração e folguedos! Dos espanhóis, herdei a intensidade e vejo alguns traços – de fisionomia e de alma – em meu pai e em vários de nossos familiares, os quais em terras brasileiras passaram a se chamar Martins.
Voltando, pois, ao tempo em que tudo começou, é preciso rememorar aqueles idos do século XIX em que os Martinez e os Salvioli se encontraram, enamoraram... e casaram! Entre eles – os precursores dessa fusão de culturas e genes -, por certo, houve mais afinidades que a opulência dos vinhedos, cultivados tanto em Almeria quanto em Nonantola... Também outros muros rochosos de fortalezas medievais – como a Alcazaba de Almeria e a Abadia de Nonantola – cercaram os caminhos da futura descendência dos Martinez Salvioli. Assim, em eras remotas, começou o clã que – mais de um século depois – me incluiria como representante e possível escriba de sua história.
Quem leu o post que aqui incluí acerca dos Salvioli e seus começos, deve se lembrar que descrevi a base dessa genealogia no Brasil. Nesse contexto, destaquei a minha bisavó Anrica (Henriqueta) Salvioli, nascida – no município de Cantagalo – de Elena Bavutti e Carlo Salvioli. Pois bem, quase à mesma época da chegada do casal italiano ao Brasil, Juan Martinez Martinez, sua esposa e filhos também chegavam ao novo solo pátrio. Isso aconteceu, precisamente, em 12 de novembro de 1889, após longa travessia a bordo do Poitou. Junto de Juan, vieram outros representantes de seu clã: Miguel e Alberto (também acompanhados de suas respectivas famílias) havendo o primeiro permanecido na capital (Rio de Janeiro) e o segundo seguido para São Paulo. E no dia 15, três dias depois, Juan, Maria e os meninos – Juan e José – saíam da Hospedaria dos Imigrantes em direção ao município de Cordeiro, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro.
Passaram-se quase vinte anos desde então. Juan Filho (mais tarde registrado João) – que havia chegado ao país com seis anos de idade – tornou-se um belo rapaz, de olhar penetrante, bigodes espessos e notável marketing pessoal (fama que chegou até nós)... Anrica, por sua vez, tinha crescido e se tornado uma moça carismática e falante... Cantagalo e Cordeiro eram localidades próximas, e, na confluência dos destinos, certo dia Juan e Anrica se esbarraram... E a filha brasileira da província de Módena avistou o tal filho dos Martinez de Almeria... Foi o bastante para Eros esfregar as mãos e atirar suas flechinhas poderosas! E o resultado desse sortilégio europeu em terras brasileiras foi o clã que, mais de um século depois, teria a mim e a tantos outros representantes genéticos como multiplicadores de sua história!
Anrica (Henriqueta) Salvioli e João Martins casaram-se e passaram a habitar o Noroeste do Estado. E foi lá que nasceram seus catorze filhos – Maria, Alberto, Manoel, João, Helena (minha avó paterna), Dolores, Alzira, Carolina, Mercedes, José, Sebastião, Antônio, Levy e Newton. Juan morreu precocemente, ainda aos 45 anos, numa passagem triste que ainda narrarei. Àquela altura – empreendendor que era – já havia se tornado um próspero plantador de café. Com a sua morte, a viúva – minha bisavó Henriqueta – literalmente tomava as rédeas da família para, ela própria, dirigir-se aos compradores da produção da fazenda. Ela e os filhos, numa profícua fusão das genéticas italiana e espanhola, constituíram-se em exemplos de um clã astuto – de sangue forte nas veias, irrefutável poder de comunicação e raciocínio, e, sobretudo, coragem... num olhar fulminante (às vezes de “meter medo”)!... A propósito, devo aqui uma autoelucidação oportuna: fervilha-me a genética italiana, sim – e com veemência! –, mas não deixo de expressar, desde meus primeiros anos, o jeito Martins de ser!... Afinal, nós, os Martinez / Martins vindos de Almeria somos intrépidos e desbravadores! Bandeirantes natos, temos o ímpeto de abrir clareiras no meio da selva e, em legítimo ímpeto espanhol, instalarmos acampamento e acendermos a nossa fogueira!
Aqui se homenageie a descendência dos povos italiano e espanhol, nessa proliferação de genes multinacionalizados que, no Brasil, originaram narizes aduncos, olhar de fogo, coração derretido e uma vontade férvida e apaixonada de bem-viver!
PS1: Juan Martinez Martinez partiu da capital para o interior do Estado do Rio de Janeiro justamente no dia em que era proclamada a República em nosso país: 15 de novembro de 1889.
PS2: Assista ao vídeo abaixo, ambientado nos cenários cinematográficos da terra originária dos Martinez ...
video