quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Exortação


Creio que, quando chega o fim do ano (às vezes nos meados do calendário também), todo mundo faz aquela solene retrospectiva de seu interior e exterior no ano que finda. E aí ocorre aquela reportação básica à lista de desejos do fim de ano anterior. Só que em meio à constatação ou não das conquistas realizadas – das meras às sofisticadas – quase ninguém se dá conta do alcance de itens que não estavam ali... Afinal, as pessoas não computam alguns ganhos, desses que não aparecem muito, como saúde boa e coisas cotidianas em seu lugar. Sem contar aqueles rasgos no cotidiano, que – vez por outra – riscam os céus da nossa placidez!... Uma coisa que me agrada muito é verificar a incidência de coisas inesperadas que acontecem             – aquelas surpresas sensacionais que extrapolam, além das expectativas, a largueza da maior das imaginações!... Ah, eu adoro esse efeito-cometa da existência!... 
Porém, sob uma ótica mais ampla, é preciso considerar até mesmo o novo que não se encontra na roda das grandes dimensões. Necessitamos olhar para esse passado próximo e saudar, com um belo sorriso, as ações (ditas) convencionais salutares, aquelas situações até comuns e esperadas, mas que ilustram com alegria os nossos dias em qualquer ano. Tanto e tanto já se ressaltou o clichê da “felicidade simples” que a ideia ganhou... contornos de lugar-comum fora de moda. Contudo, por trás disso, talvez esteja a resposta de muitas de nossas buscas mais ousadas. Às vezes, estamos mesmo desejando algo maior para, com tal conquista, realizarmos bem – e com mais facilidade – coisas consideradas menores, cotidianas mesmo!
Quando me referi, aqui, à dádiva da “saúde boa” como um bem que não aparece aos nossos olhos, creio estar lembrando uma de nossas mais inconsequentes verdades: a não-conscientização do valioso bem da saúde que fomenta a conservação da vida, objetivo que deveria ser o mais importante de todos. Afinal, do que servirão quaisquer de nossos novos tesouros adquiridos na ausência do básico – a sobrevivência? Francamente, depois que passamos por uma ameaça vital, não sabendo se ainda estaremos vivos em 24 horas, muitos de nossos antigos conceitos de conquista se perdem. Primeiro, pois, necessitamos de um corpo subsistente, para depois orná-lo com as sedas, os metais e os rubis da trivialidade material. Parece ridiculamente simples – e mesmo evidente – esse conceito, mas não é. Porque é preciso compreendê-lo em sua plenitude, ou seja, conhecer a verdadeira face da subsistência ante o risco, da vulnerabilidade ante o desconhecido do futuro dos próximos minutos.
É em situações assim que podemos perceber o quão insignificantes podem ser muitas de nossas preocupações e agruras. Parece que é comum inventarmos problemas – dilemas imaginários –, na ausência de problemas reais em situações palatáveis. Por vezes, os nossos fantasmas interiores podem mascarar conquistas obtidas na fluência de nossas ações e, mesmo, impedir o alcance de outras maiores. O problema é sabermos quando há, de fato, um problema. Porque, não raro, muitas de nossas questões de difícil solução não existem senão no terreno exacerbado de nossa imaginação.
Nesse período de reflexões e Festas, além de decorarmos a casa e comprarmos os mimos para a troca de presentes, talvez o melhor seja limpar o nosso eu interior de fantasmas arraigados que se afiguram, sob uma ótica deturpada, como problemas sérios e implacáveis. Ora, a decisão pode ser o seu veículo de fé. Com ela – após exortar seus fantasmas interiores – você poderá criar um caminho livre para bem exercer a dádiva imensurável de sua vida! Neste Natal, dê-se um presente peculiar, personal: a autolibertação, a liberação pessoal para o gozo pleno do cotidiano. Liberte-se das amarras que lhe complicam a vida, desate-se do difícil e do insolúvel! Acredite na translucidez de um caminho novo e límpido. Exorte seus fantasmas interiores e ganhe o mundo vasto de sua existência!


Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A efemeridade do instante


A efemeridade é, a um só tempo, algo fascinante e atemorizador. Pode encantar-nos a possibilidade da inovação, da descoberta, da transformação positiva. Por outro lado, também assusta cogitar a ruptura, a separação, o fim de algo. Isso porque cada momento tem fôlego único, e – uma vez esgotada a sua sobrevida programada – ele passa, mais rápido do que tempestade sem aviso.

Eu sou amiga do imprevisível e do surpreendente. Não que eu procure, todo o tempo, inovar a face dos meus dias, mas o fato é que eles sempre me trazem coisas novas, incessantemente. E isso se estende aos que convivem bem de perto comigo: é voz geral que ao meu lado não existe rotina (risos). Parece que tenho chamariz para a novidade, para a turbulência feliz de uma tal sucessão de emoções... Adoro dizer – e é verdade – que não suporto o marasmo, nem ele a mim!

Dizem que penso rápido, e estive analisando essa questão. De fato, estranho quando faço uma pergunta – ou peço uma opinião, proponho uma hipótese – a alguém, e, ao insistir na resposta, escuto: “Estou pensando para te responder”. “???” “Sua pergunta é profunda; é preciso pensar a respeito”. Não quero, com isso, ser pretensiosa, mas às vezes me parece curioso que uma pergunta mera desperte a susceptibilidade não-palpável das reflexões. É lógico que não quero aqui dar uma de dona da verdade, mas acho que costumo ter em mim – quase sempre – respostas prontas para a vida, pelo menos para os questionamentos que ela me faz diretamente. Sei que sou muito imaginativa e sofro de um tal complexo de sibila, já que, meio inconscientemente, acho que posso antever fatos e adivinhar coisas (risos). Reconheço que o livre exercício de pensamentos imponderados deve constituir um grave defeito meu, mas não costumo parar para pensar quando sou questionada, informalmente, a respeito de minha opinião sobre determinado assunto. Nesses casos, parece que a resposta, latente em mim, já está lá desde sempre, pronta, formada, calcificada, esperando para ser dita. Andei pensando também que talvez isso seja uma autoconsciência da efemeridade de que é feita a matéria da vida. E do tempo.

Tudo passa, como uma nuvem que se esvai, diluente e inalcançável no espaço. E o fluir dos dias é mais vulnerável que o correr da areia na ampulheta. Aliás, outro símbolo não poderia demonstrar melhor o abstrato não-transcendente da infinitude... E assim é com as pessoas, as circunstâncias, os fatos. Cada cena vivida no hoje-imediato parece despedir-se com pressa do instante seguinte. E isso é mais complexo do que se possa imaginar. Desde a infância, às vezes corro para registrar algum momento, pois tal evento só poderá ser retratado de modo único naquele instante. Uma fração de segundo posterior... e tudo poderá estar perdido! Já comprovei isso algumas vezes. Por isso, costumo registrar cenas triviais, aparentemente “repetíveis”, pois a verdade é que o tempo não espera – jamais! – e aquelas imagens/energias logo estarão relegadas a um limbo iminente de intenções, nossas ou do temperamental Cosmos. Por isso, é sempre tempo de correr para alcançar a vida! Porque o agora é terra do imponderável e do implacável: em tese nada pode eternizá-lo. O infinito é vasto, mas não possui em si elementos que se repitam; nada é reincidente, ainda que na amplitude do ilimitado.

Foram vários os poetas e pensadores que discutiram esse tema, a seu admirável modo. Leminski escreveu: “Haja hoje para tanto ontem”. Quintana achava que “para sempre é muito tempo”. Vinícius e Pessoa também pensavam de modo similar sobre a fugacidade e a intensidade do instante. Platão se referiu ao tema como “a imagem móvel da eternidade imóvel”. De todo modo, se pode concluir que essa luta por esgarçar o instante é uma história antiga no reino das especulações humanas. Também há aquelas situações em que acreditamos ser necessário despender muito tempo para a realização de algo. Nesses casos, é bom lembrar que, independentemente de como vamos usar o tempo, ele vai passar de qualquer forma. Então, é oportuno usar o máximo possível esses instantes passageiros.

Tolstoi é incontestável em sua afirmação de que “o tempo e a paciência são dois eternos beligerantes”. Fica implícita aí a idéia da efemeridade do instante reclamante nessa arena... E, mesmo acreditando em Plutarco, que afirmava ser o tempo o mais sábio dos conselheiros, aposto que o agora seja o plano do despertar, como defendeu Buda. Creio mesmo que o momento seja sempre agora, a hora de fazer as coisas acontecerem. Nesse sentido, Deshimaru fez referência ao tempo como “uma série de pontos do presente”. Afinal, a vida é feita do instante: fugidio, ininterceptável. Já li, a propósito, que o instante é um inimigo sutil que ataca fugindo... Como nos versos de Claufe Rodrigues: “sou o dono do meu tempo, mas de repente vem o vento e... eeeeeeeê”!...

De tudo isso emana a idéia de que estamos sempre sendo roubados pelo tempo. E a eterna responsabilidade consequente de não apenas “passarmos o tempo” e, sim, de tentarmos utilizá -lo inteligentemente, como alertou Schopenhauer. No fim das contas (contas do instante), o bom deve ser usar a potencialidade do momento, afinal o presente deve ser mesmo a matéria de que somos feitos (todos os louvores a Borges!). E seguir a máxima propiciadora de Hitchcock pode ser a grande pedida: “Minha cápsula do tempo vai até o ano 3000”. Afinal, esticar o instante pode até parecer uma tarefa para titãs, mas de que força não é capaz o ser humano se munido de real desejo? O desejo é o maior poder do homem. E por isso é possível ampliar, atenuar, valorizar, intensificar, tornar pleno e, em circunstâncias extraordinárias, perpetuar de algum modo o efêmero instante! Mas acima de tudo é preciso cuidar dele.

Por Sayonara Salvioli

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Consumação & percepção inata


                                 Imagem: Bruno Mallart

Quanto ao primeiro sentido – consumação –, não falo de consumo, apesar de todas as contemporâneas tendências mercadológicas (risos). Refiro-me ao ato de se consumar um fato pelo simples meio de sua realização. Falo de experiência! 
Inspira-me – e me admira, impacta – essa tal experiência (em certos casos, real vivência de alguns poucos) – capaz de muito nos surpreender, a qualquer tempo ou em qualquer de suas faces. Impressiona-me, sobremaneira, o poder que uma ação experimentada tem de trazer à tona a percepção, a compreensão  de algo. Afinal, o empirismo vem provando através dos séculos o seu poder de fogo. Mas aqui se ressalte, também, um empirismo conceitual não-absoluto, passível de uma mesclagem experiência / analogia intuitiva. Afinal, não sou adepta de um radicalismo empírico que faz pressupor a base do conhecimento advinda só de uma prática não-pontual.  
Sirvo-me, porém, de uma verve basicamente empírica. Ainda que acreditando na semente da indução humana, fico pensando como, algumas vezes, é possível que se volte ao zero de uma pressuposição estóica, não bastando a consciência da plausibilidade recomendada, mas só a isso se fazendo adesão depois de um confronto com a realidade... Às vezes pode ser difícil acreditar na imagem em que não colocamos, de fato, os nossos olhos. Seria isso uma espécie de emblema pós-moderno do bíblico Tomé, agnose profunda, cepticismo, inconsistência cognitiva?... Há hoje, claramente a nossos olhos de não-Tomé – seres e situações de forja, "personalidades inventadas" por incautos da arte, bons somente para a sociedade espetacularizar... Banalizações de sentidos pessoais entre vis trocas metais, em mercado público!... Production services?! 
Volto ao embate conceitual entre a inclinação natural e a experimentação, insistindo em não sucumbir a absorções cabais de teorias e ensinamentos de Bacon, Locke, Hobbes, Hume ou Russel (sem esquecer naturalmente a representativa anuência aristotélica –, filosofações outras à parte), a cristalização de algo em campo real tem o poder de suscitar a soberania de ações. Em outras palavras, parece mesmo que, em determinados casos, só a experimentação pode trazer ao humano a visão de uma situação como ela realmente é, independentemente de avisos ou campanhas sobre um produto ou uma pessoa, por exemplo. Nada nem ninguém poderá ser tão vivo como aquilo que é tocado pela mão do fato. E a verdade, no campo da arte, esta não se esconde!
Poderíamos dizer, a propósito, que a experiência é uma espécie de realidade lapidada, sofisticadamente visualizada em peculiar 3D... Talvez advenha disso o poder cognitivo sobre aquilo com que efetivamente travamos contato. Na esteira disso, a ineficácia das sugestões(?!), o vácuo dos alertas vãos e a incerteza de induzidas suposições.

A arte – em sua forma primeira, plena e real – se faz veemente e reconhecida defensora do inato: da intuição, da percepção a distância e do florescimento do desconhecido ou inexplicável. Curvando-se ainda – reitere-se – à tal realidade empírica, que – por claras vezes – insiste em ser chamada à tona das emoções palpáveis. Sim, o empirismo visita o artista e vice-versa. Mas as suas visitas são vãs para o tal e deplorável artista de forja. 
Então, já não há incógnita: podemos descrever ou sentir o real sabor da água que nunca bebemos? Sou levada a crer, nesse sentido, que apesar dos saberes prévios, há situações que exigem a dimensão abarcadora da textura táctil do que passou pelas nossas mãos. E é essa ideia – que passeia despretensiosamente pelo terreno dos epicuristas – que me clareia essa análise do tal aprimoramento humano (do que é latente) pela cabal experiência. É no momento, sem dúvida, essa espécie de consumação conselheira que me move a lauda eletrônica. Talvez embalada que esteja pelas experiências vividas este ano...
E nesta fração de segundo (mais recente) talvez tenha vindo à percepção das minhas suposições um desejo de interseção entre o inato e a experiência; desejo já antes propalado e que – reitero – só é possível realizar com a fusão de dois elementos: a vocação (chama interna) e a mão (a experimentadora). Assim é que o artista essencial se vale daquela luz natural e inatíssima – mãe da intuição e do conhecimento primordial, em sua face genuína –, ao mesmo tempo em que prova o néctar disponível das circunstâncias... Nesse encaminhamento, quem irá acreditar na indelebilidade da tabula rasa diante da natural admissão por ideias a priori?...  Consumação inata + experiência = concepção com anterioridade! Que surjam, na sucessão dos anos, as próximas experiências prováveis – para que realmente possamos atestar convicções e aprendizagens –, mas que estas se originem da mãe (intuitiva e sábia) de um racionalismo precedente, em que o inato se faça sentir!...

Por Sayonara Salvioli

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dona Mudança


Quem não sabe aqui que entre Dona Rotina e Dona Mudança, fiz amizade com a segunda? Talvez por isso insista, até involuntariamente, em alternar horários e distribuir aleatoriamente certas tarefas do meu dia-a-dia. Não compreendo bem uma sistemática de vida que pressuponha atividades sincronizadas com horários totalmente regulares e inflexíveis. Necessito colocar um tempero no trivial. 

Na esteira desse pensamento, encontram-se também aquelas filosofias de renovação permanente, do desafio do trapézio etc. (aqui já mencionadas). De minha parte, hoje prefiro simplificar as abordagens, lembrando apenas o quão necessária se faz a mudança em nossa dinâmica de vida. Afinal, estacionar em algum estágio pode ser a primeira via do marasmo existencial.

Tenho percebido que, com o passar dos anos, estou me tornando mais exigente com tudo à minha volta: com as circunstâncias, com as pessoas, comigo mesma e com o tempo, principalmente. Procuro extrair do Cosmos o máximo de bálsamo vital, aquela espécie de dose extra de essência e significado, aquele quê a mais que pode existir nas coisas, durante cada fase experimentada. E é aí, nessa análise involuntária, porém latente, que surge o ímpeto da mudança.

Por vezes, queremos de fato escolher a via da mudança, mas não o fazemos de imediato por causa de situações que fogem ao arbítrio de nosso desejo, comprometimentos outros alheios à nossa vontade. Em muitos casos, o outro pode ser um impedimento natural e lamentável para o nosso eu, uma espécie de veto da transformação. E talvez seja essa mola propulsora da transformação – o desejo – a grande catapulta da felicidade de Aristóteles. Não podemos deixar, pois, que outrem ou circunstâncias aparentemente desfavoráveis (ou temerosas) possam impedir a escalada natural de nossos pés bandeirantes. 

Na prática, talvez, o dilema fundamental seja fazer a opção entre o antigo (que pode ser a obsolescência) e o novo (que pode ser a plenitude). Por certo, é uma decisão difícil, que envolve nuances tênues do espírito, afinal o susceptível, ao passear pelos terrenos da imprevisibilidade, pode encontrar surpresas fora de roteiro. Mas para os ousados e autoconscientes, o medo do novo nunca existirá de modo a impedir suas ações.
Há pouco, concluí a necessidade da mudança, da renovação, da abertura. Optei pelo novo e me pergunto, a cada momento, o que de mais fascinante ainda pode acontecer... Afinal, é inegável o encantamento que a novidade traz, com todas as suas facetas de atração e susceptibilidades.

E lá vem novamente a Dona Mudança, figura aparentemente amiga de face desconhecida!... Pois aqui estou: quero (re)conhecê-la!...


Por Sayonara Salvioli

domingo, 12 de setembro de 2010

A rosa artificial


Melina guardava lembranças um tanto insólitas da sombria figura de Carlota Sholstein. Lembrava-lhe, sobretudo, a personalidade extravagante e desproporcionada, aquele vozeirão autoritário, de tom grave, saído surpreendentemente de uma mulher de estatura pequena. Carlota media cerca de 1,50 m, mas sua audácia e imponência pareciam forçar a sua imposição sobre o mundo.
Carlota, porém, e a despeito de personalidade tão pouco simpática, era ainda uma mulher bonita em sua face de sessenta e poucos anos e olhos verdes. Seus traços harmoniosos provavam que fora realmente bela na juventude e induziam à idéia de que, como sempre afirmava, tivera os homens a seus pés. Se isso fora verdade, não se sabe, o fato é que Carlota guardava ares abusivos e pretensiosos, aquele jeito de quem pisoteia o mundo e as pessoas, e acha que pode fazer isso.
Mas um detalhe se perdia nas histórias de vantagens da mulher: depois de seus alardeados anos de glória feminina, vivia agora solitária e amarga numa casa de cinco quartos que mais parecia um castelo-fortaleza medievo em tempos de hoje. Em lugar dos antigos saltos-agulha, usava chinelões fofos de matelassê, confortáveis e anatômicos. E as suas roupas agora eram discretas, assentadas no corpo, porém sem o destaque curvilíneo e aprumado de seus dias de diva. Restava-lhe, ainda assim, um pouco da silhueta: quem a olhava de relance podia vislumbrar um desenho esguio de corpo, em formas delineadas de elegância pessoal. Mas a sua persona, esta sim, não fazia bem aos olhos ou sentidos de quem quer que fosse, pois à sua visão se somavam certos pedantismo e artificialidade incapazes de causar qualquer empatia.
Melina se lembrava, por exemplo, de algumas frases repreensíveis da mulher, quando lhe fora apresentada a esta por Heloísa, sua amiga e sobrinha de Carlota. Dentre outras pérolas, a mulher disparara:
– Mas essa sua amiga é mesmo muito sem gracinha, Heloísa. Mulher tem que ser imponente! – e para Melina: – Você até que é bonitinha, menina, mas um pouco suavezinha demais para quem já tem catorze anos... Uma mulher, mesmo novinha, tem que aprumar o corpo e empinar o nariz quando passa por algum lugar, para todos saberem quem é que está passando por ali. Você tem que ser mais metida, Melina!
Heloísa até ficava com vergonha do jeito e das palavras equivocadas da tia. Carlota era uma mulher estranha, dessas típicas figuras estereotipadas de histórias exóticas, meio estapafúrdias mesmo. Embora quisesse parecer fina, primava pela deselegância de atitudes, e luzia um letreiro em sua fronte, o que era perceptível até mesmo para meninas suavezinhas de catorze anos.
Além das frases e dos trejeitos peculiares, Carlota contava muitas histórias, que pareciam cobertas de lenda, como por exemplo a da do “devotamento” de seu antigo noivo [noivado de 25 anos?!], que lhe oferecia, todos os dias, a lua e o sol de presente... Pífias histórias! Também gostava de narrar glórias de riquezas passadas, tentando esconder os louros - em ouro e euros – do presente. Heloísa, a respeito, afirmava com todas as letras que a tia era dona de considerável fortuna:
– Ela é cheia do ouro, literalmente: ouro em barra que ela guarda no banco!... tabletes e mais tabletes!!! Também tem aplicações que lhe rendem mais de 40 mil euros ao mês!
Mas Carlota, apesar dessa riqueza apregoada, não passava de uma sovina de marca. E o que era, de fato, verdade em sua vida não se sabe. O que ficou, afinal, de todas aquelas conversas de visitas vespertinas, junto de Heloísa, à casa de Carlota foi a imagem de uma mulher cheia de artificialidades, tantas que faziam dela uma espécie de biscuit humano fora de época. A lembrança de uma mulher falsa, fútil e carregada de maquiagem forte e apetrechos de mau gosto. Mas uma imagem forte, sem dúvida. Tanto que – mais de uma década depois – toda vez que Melina passa em frente à grande casa de Carlota, não consegue deixar de olhar para a sacada e procurar a rosa vicejante... O que vem a ser esta/ isto? Ahhnn... é a flor “de mentira” que Carlota amarrava à planta do centro da varandinha, para que todos a vissem lá de baixo. Ela dizia:
– Todos que passam pela calçada do outro lado da rua devem ficar imaginando como é que a moradora desta casa consegue cultivar uma planta assim?!... Tão fecunda que tem sempre uma rosa linda, enorme, vicejando e aberta! Que mãos de fada essa mulher tem! Nunca vi uma rosa tão bonita!... Ah ah ah ah!
Era uma vaidade boba, e que parecia mais boba ainda ao ser proferida por Carlota. No entanto, até hoje, quando passa diante da casa de Carlota, Melina estica o pescoço para ver se avista a flor.. E a encontra lá, invariavelmente, bela e magnetizante, fingindo ao mundo que é rosa! A moça imagina que, no dia em que levantar os olhos e não avistar a rosa, em todo o seu viço de mentira, entenderá que Carlota morrera.
No fim de contas, o que mais impressiona Melina na história de Carlota não é a sua imagem nem sua personalidade, e sim a lição do embuste de uma flor sintética amarrada a uma planta de verdade. Melina sempre pensa a respeito e põe-se a refletir sobre a branda inocência dos passantes da vida – transeuntes ignaros – que, muitas vezes, avistam ao longe uma flor artificial julgando tratar-se de uma linda rosa!
Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O menino do quarto sem janelas



O pequeno João era um menino diferente dos outros. Não lhe interessava a pressa das manhãs, quando seus colegas saíam em busca de aventuras. Ele preferia as horas noturnas e seu lazer embalado pelas vozes da leitura. Sempre trocou a companhia daquele amiguinho espertíssimo pela de Monteiro Lobato ou Júlio Verne. O passaporte para as viagens de seus sonhos era o livro, sempre ele, o seu melhor amigo.


Se João não era o melhor desportista de sua classe, uma coisa era certa: no pódio da leitura – no campeonato de Comunicação e Expressão – era seu sempre o primeiro lugar. João divagava pelo País das Maravilhas só encontrável na Terra da Fantasia literária. Foi lá que ele conheceu Vinícius, Quintana, Bandeira, Neruda e tantos outros desses artífices das letras que para sempre lhe iluminariam os olhos. Porém, antes mesmo de se deixar ofuscar pelo brilho da literatura, o pequeno João já irradiava luz própria. Assim era na escola, na igreja, na rua ou em casa. Na família, João concentrava todas as preferências, por sua condição-prodígio e pela verdade sempre estampada no olhar. Sua vivacidade de espírito permitia-lhe muitas proezas, e no íntimo do lar, ainda em sua pouca idade, era capaz de despertar a atenção e a admiração dos grandes, dos chamados adultos, aquelas pessoas que ele deveria obedecer, como estava escrito em algum lugar, ele imaginava. Mas não concordava que deveria obedecer a outros sempre. Aos nove anos, já era um diletante, e isso lhe concedia uma sóbria autoridade de menino imponente.

Diante de tamanha popularidade familiar e social, João desenvolveu uma personalidade muito própria: criava teorias e receitas de vida, código que ele imprimia a si próprio. Até porque, se ele seguia regras, estas adivinham de seu pensamento sempre elevado às nuvens da imaginação!,,. E tão alto João ia em seus desejos e ideologias que ele começou a construir um mundo muito particular. Se na escola ou na rua ele não podia tudo, na sua casa ele mandava! Fez-se rei do próprio reino familiar e ali começou a acreditar que poderia moldar um mundo a seu bel-prazer.

Mas havia um reino, além do que excedia os limites da sua casa, que João também não podia dominar. Era o reino da natureza: aquele conjunto de lago, montanhas, campos esparsos e flores que cincundavam o seu lar, mas que guardavam alguma hostilidade em relação a ele... Aquela história, por exemplo, de o sol bater no seu rosto tão logo chegasse a manhã, na sua opinião, era um desrespeito da natureza! Onde já se viu sol invadir sonho de menino enquanto ele ainda exercitava seus indevassáveis devaneios de criança?

Certo dia, então, João murmurou que não aguentava mais aquilo... Afinal, depois de longas horas de leitura na madrugada, acordar já com o astro amarelo tinindo nos seus olhos era coisa de irritar até criança paciente! E ele nem era nem paciente! Foi aí que o menino proferiu a frase mágica:
– Eu queria ter um quarto sem janela!

Mas aquilo, claro, lhe parecia um sonho passível de existência só em contos de fada, onde os meninos podem ser felizes de acordo com as suas vontades mais coloridas...
João ainda não sabia que o desejo é o maior poder do homem.

Naquele mesmo dia, quando ele voltou da escola, avistou uma cena da qual nunca mais se esqueceria enquanto vivesse. Foi com olhos carregados d’água que ele viu o pai – homem de labor admirável e coração amoroso – com espátula e concreto nas próprias mãos – a cobrir aquele indesejável vão na parede de seu quarto! Mais algumas horas... e o seu primeiro grande sonho impossível estava realizado: João agora era o dono do único quarto sem janelas do mundo! E era só seu, o seu país de magos e poções, a sua Pasárgada, o seu reino particular concedido por João pai, que escutara o seu desabafo-asiração, proferido em voz alta na véspera... A um desejo, o sonho concretizado!

Naquela noite, antes de dormir, João sorriu para as estrelas na sua imaginação. Não precisava vê-las através de uma janela; podia contemplá-las, mais resplandecentes que nunca, na translucidez de seus próprios olhos... Ali, naquela cama de menino, alguém iria dormitar na noite com uma verdade davinciana recém-descoberta pelo coração infantil: os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo! Por isso, o quarto de João não precisava de janelas.

Por Sayonara Salvioli

sábado, 10 de julho de 2010

Cena de acrofobia

Estava fora do Rio, numa viagem rápida. Almoçava no hotel quando o celular tocou:
– Alô!
– Oi! Sayonara? (tempo) Este celular é da Sayonara Salvioli?
– Sim. Eu mesma.
– Tudo bem, Sayonara? Meu nome é Marcela. Sou produtora de um programa de TV. Canal fechado.
– Oi, Marcela! Como vai? Já nos conhecemos???
– É que eu te vi numa comunidade de acrofobia no Orkut. Tava pesquisando perfis de pessoas acrofóbicas. E achei o seu muito bom. Não vamos achar perfil mais interessante que o seu.
– Como pode achar isso??? Só pelo meu profile?
– Não. No seu profile eu vi o link do seu blog. Entrei e adorei! Você é a pessoa que a produção precisa pra mostrar no programa.
– Ah, sim. Visitou o meu blog. Que bom!... Mas como conseguiu o meu celular?
– Sabe como é... rede de contatos! E um fator facilitou tudo: uma colega minha de trabalho estudou com a sua filha na PUC... Aí foi beleza.
– Aham.
– Então, uma entrevista com você seria bem legal porque mostraria alguém com um perfil bacana, inteligente... e que sofre de acrofobia. Mostraria que gente interessante também pode ter fobias. Se importa de falar sobre o assunto?
– Claro que não! Tenho acrofobia mesmo, tanto que entrei numa comunidade do tema.
– Então, como é a sua? Tem um grau muito alto?
– Olha, eu diria que se trata de uma acrofobia normal (risos). Intensa em alguns momentos, como todas as fobias. Mas nada que chegue a causar pavor ou grandes dificuldades. Ando bem de avião (só não gosto de longos vôos à noite, mas também não fujo deles) e moro no vigésimo terceiro andar.
– Vigésimo terceiro andar??? Nossa, então você não sofre de acrofobia de verdade?!
– Acho que podemos dizer que tenho manifestações acrofóbicas, mas que não sofro propriamente com o medo... não sou doente disso, digamos... Não sofro profundamente de acrofobia simplesmente porque isso não é, pra mim, nenhum padecimento.
– Mas você topa participar do programa, dar uma entrevista pra gente?
– Topo, sim. Sem problema. Mas lembrando que eu sou uma fóbica moderada, tá? Não sei se isso se enquadra no perfil da matéria que estão preparando.
– Poxa! Eu quero muito fazer um quadro bem bacana com o seu depoimento. Mas precisava mostrar alguém com sérios problemas de fobia, a ponto de isso atrapalhar gravemente a sua vida...
– Olha, Marcela, com toda a franqueza, esse não é o meu caso. Na verdade, não que eu queira ser pretensiosa, mas acho que sou bem resolvida demais para algum medo assim atrapalhar a minha vida.
– Ih... Como vamos fazer então? Precisamos mostrar para o telespectador aquele pavor que toma conta do acrofóbico quando está diante da altura. Sabe aquele medo nos olhos, aquela sensação de terror estampado no rosto?... É disso que precisamos!
– Marcela, então eu acho que o meu perfil não é o indicado, não...
– Desculpe a insistência. É que o seu perfil pessoal seria perfeito para o programa em si, já que é um pgm com uma audiência bacana. Me diz mais alguma coisa sobre o seu tipo de fobia...
– Bom, minha acrofobia é muito peculiar. Como te disse, fico muito bem no avião, contemplando tudo da janela, e me instalo – com conforto – no peitoril de concreto da minha varanda. Não sinto medo nesses momentos. Se uma grade está na altura do peito, por exemplo, não me incomoda a altura. O que me atemoriza somente é estar num lugar alto com o entorno vazado... Por exemplo, se o peitoril da minha varanda não fosse de concreto, se fosse uma gradezinha frágil... Então, se eu olhar pra baixo de uma altura considerável – vendo o que quer que me envolva (algo de vidro, aberto ou transparente) na altura da minha cintura ou abaixo dela... fico insegura momentaneamente.
– Nervosa, muito nervosa, quase sem respirar?
Parecia que a produtora queria seguir uma linha de edição prévia, atribuindo-me características que eu não possuía. Era preciso preveni-la; dizer-lhe: Espere aí, minha filha. Tenho fobia de altura, em alguns casos, mas isso não me atinge o autocontrole e a noção do que se passa ao meu redor. Pelo contrário, previne-me, me ajuda a criar um escudo de autoproteção.– Não, absolutamente. Só circunstâncias drásticas têm o poder de me deixar muito nervosa. E a minha... digamos... leve fobia de altura não é uma dessas.
– Você falou em algo transparente ou de vidro te envolvendo, te causando medo...Tipo um elevador panorâmico? Fica apavorada quando está em um?
– Não. É verdade que não gosto muito de elevadores panorâmicos; posiciono-me sempre do lado fechado (quando há), mas eles também não me apavoram. Jamais deixaria, por causa dessa fobia, de usufruir do conforto deles e ter que subir lances de escada, por exemplo.
– Ah, sim. E o bondinho do Pão de Açúcar?
– Olha, só tive a magnífica visão da Baía de Guanabara uma vez, há muitos anos, quando resolvi encarar o bondinho. Fiquei fascinada, claro, mas não aproveitei todos os ângulos por não me sentir bem olhando de uma altura tão grande. E também não quis voltar lá. Essa é a minha diferença para quem não tem acrofobia: não me amarro nesses passeios, não pratico escalada, não me divirto nas alturas. Só isso.
– Então você não pularia da Pedra Bonita?
– Claro que não! Nem mesmo se desejasse o suicídio!...
– Então eu já sei: vamos fazer esse quadro com você na Pedra Bonita, mas com muito cuidado. A equipe te acompanha, a gente te cerca de profissionais da área e a gente filma, lá em cima, as suas reações. Mas precisamos pegar bem seus momentos de tensão, suas caras e bocas de medo... Pode ser?
– Está sugerindo que eu receba um monitoramento de vo
o livre e me lance nas profundezas do espaço? Esqueça!
– Não, Sayonara, não é isso. A gente só levaria um papo com você, com sua conversa inteligente, imaginativa, falando da sua fobia...
In loco?
– Sim. Algum problema?
– Todos. Gosto de entrevistas, de câmeras. Nada contra. Mas não gosto de espetacularização conceitual.
– Hã? Espetac... o quê? Como assim?
Eu já estava perdendo a paciência. E quem estava do meu lado já previa uma de minhas ditas temíveis reações (risos)...
– Olha, Marcela, vamos fazer uma coisa: eu te indico alguém que sobe a Pedra Bonita, com mochila nas costas... sabe, do tipo que acampa, usa tênis diariamente e convive com mosquitos?...
– Não, não, Sayonara. A gente queria o seu perfil!
– Lamento. Não dá pra ser o meu perfil, O.K.? Além disso, ele não é tão adequado assim às expectativas de vocês: não faço cara de apavorada e atentaria contra o figurino da jornada. Já pensou: eu na Pedra Bonita com meu salto agulha?
– Puxa...
– Desculpe, tá? Mas tudo que posso fazer é ajudar com uma indicação de entrevistado. Conheço muita gente e posso ver alguém que tope o programa. Você quer?
– Se não tem outro jeito, se não pode ser você, quero sim. Quem é?
Sim. Quem é? Perguntei-me o mesmo. Lembrei de algumas fisionomias-personas e, por fim, fixei o pensamento numa pessoa. Eu já ouvira dizer que ele tinha acrofobia... tipo não tremia de medo de altura, mas também não gostava de escalar... e não ficaria à vontade pagando alguma aposta no Corcovado.
– Ah, o nome dele é Leonardo.
– Legal... Qual a profissão dele?
– Ele é publicitário, marketeiro, um perfil legal, bem descolado, você vai gostar.
– Jura, Sayonara? Puxa, você está me ajudando muito! Mas... será que ele vai topar?
Ri por dentro pensando que, do jeito que o cara era vaidoso com aparições e ávido por mídia, aceitaria na hora. Na verdade, acho que ele venderia até a mãe pra isso.
– Ah, ele vai (sufocava meu riso interno)! Vou te passar os contatos dele.
Marcela agradeceu mais uma vez e anotou tudo.
Até fiquei curiosa com o desenrolar da situação, mas os dias seguintes foram muito ágeis para que eu tivesse tempo de procurar notícias a respeito. Acabei perdendo a exibição do programa. Na correria, esqueci mesmo.
Marcela, no entanto, muito grata por eu ter lhe arranjado a pessoa certa para a entrevista, me ligou de volta dias depois.
– Sayonara, você foi muito bacana! O programa ficou ótimo! Me ajudou demais!
– Que bom! E como foi a entrevista? Ficou legal? Como o Leonardo reagiu a setecentos metros de altura?
– Ah, vou te contar... Ele acabou não indo, mas no final deu certo.
– Mas... como, se ele não foi?
– Ele não foi, mas mandou a mãe.

Não falei?

domingo, 4 de julho de 2010

Presa na torre?!


Quando eu era criança, li a obra Ou isto ou aquilo, da sensacional Cecília Meireles. E me chamavam especial atenção os seguintes versos: É lá que eu quero morar: no último andar. Ora, além do poema na obra específica, eu lia, relia e reencontrava aqueles versos em todos os livros de Comunicação & Expressão (lembram-se desta nomenclatura?) da escola. Havia um, inclusive – de quando eu tinha nove anos – que trazia uma ilustração complementando perfeitamente a idéia dos versos de Cecília: uma menina, provavelmente da minha idade, olhando as estrelas, em meio à altura estonteante de um último andar do que parecia ser o maior arranha-céu do mundo!...

Aquela imagem, em coesão cognitiva com o lirismo daqueles versos, me reportava a um apartamento – situado onde eu não sabia – plantado bem no meio das nuvens! [De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar]. E tal me parecia muito interessante, embora a realidade de meu momento infantil também fosse fantasiosa: eu habitava o mistério de uma casa enorme – cenário perfeito de um filme de suspense –, que tinha um imenso corredor, com portas labirínticas por todos os lados (parecia-me – quando eu saía correndo pelo corredor, sozinha – que de cada porta daquelas saía um fantasma diferente!), com muitos quartos e salas, espelhos, portais, cofres, estantes e livros... Uma grande casa linear, que não necessitava de uma amplitude vertical como a dos versos cecilianos. Ainda assim, aquela página com os versos e a ilustração me detinham, e retinham mesmo minha imaginação, fazendo-na divagar pela cidade distante do reino mágico daquela poetisa que queria morar no último andar!... No último andar é mais bonito (...) É lá que eu quero morar. E eu pensava: eu também!

Seria difícil descobrir (embora eu tivesse contado o número de andares do prédio do desenho e este mudasse de livro para livro) se aquele arranha-céu de literatura aplicada excedia um prédio de uns trinta andares... Seria possível? Nem os anos – décadas – me responderam isso, mas Mestre Tempo não se esqueceu da incógnita. Embora um pouco mais tarde eu tenha me descoberto levemente acrofóbica, o que talvez tenha amainado, por vários anos, a minha fixação por um tal fantasioso andar perto do céu... Mas eis que, um belo dia, visitei um imóvel, e do alto de uma de suas janelas vislumbrei, em divisa tênue, o encontro do mar com o horizonte! [Do último andar se vê o mar]. A paixão foi quase imediata e... resultado: mudei-me para lá! Ou melhor, para cá!

No primeiro amanhecer, acordei com um passarinho entrando por uma fresta ainda não coberta no vão do ar condicionado [Os passarinhos lá se escondem para ninguém os maltratar]; nas primeiras noites, mirei as luzes do entorno: pareciam olhos de íntima metrópole [Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar]; nos primeiros meses, o céu visto dos olhos da cobertura [Quando faz lua no terraço fica todo o luar]; nos meses seguintes, porém, meu olhar começou a buscar um estreitamento com a terra [O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar]. A poetisa era também profetisa, afinal uma condição pressupõe a outra.

De uns tempos para cá, ao visitar lugares de alturas mais razoáveis, comecei a sentir uma certa familiaridade com o que é mais próximo dos espaços lá de baixo: parques, crianças e gentes em seu tamanho natural!... E agora me sinto, de novo, quase que como a menina dos versos de Cecília: a mesma perplexidade ao olhar para as nuvens, porém com um certo estranhamento ao mirar a distância do último andar. Será que é lá (aqui) que eu quero morar?... Parece acometer-me, tardiamente, o complexo de Rapunzel! (risos). Também me vêm à mente consciências bruscas de Ismália!... Porém, consciências... claro! Prefiro, naturalmente, contemplar a lua no céu de um alto bem mais alto que sobre a lua no mar! Mas não tão alto que se avizinhe do céu assim! Restam-me, então, os elevadores e as escadas, pois meus vôos de imaginação parecem me ditar um passeio mais ao nível das gentes passantes, dos gramados e das flores, das praças, dos cãezinhos passeadores, da padaria, da banca e das esquinas. Depois da experiência real do arranha-céu de Cecília, no poema da realidade estou me sentindo como que presa na torre!...

Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Verba sequuntur rem


Nem tão morta assim a precursora língua... Afinal, inúmeros são os ditos em Latim que – em concomitância com seu significado e expressão – tanto se aplicam ao contemporâneo. Considero apropriada esta sentença, por exemplo: Verba sequuntur rem, isto é, as palavras seguem a coisa. Como assim? Simples: atrelado à chegada de um objeto a um contexto sociocultural, automaticamente o seu nome – o novo nome, a novidade linguística – virá junto. Essa deve ser uma das causas essenciais de renovação da língua, na propagação do que poderíamos chamar, genericamente, de modismos linguísticos, e não apenas de estrangeirismos/empréstimos, dada a peculiaridade de enfoques.


Exemplos bem atuais dessas novidades e incorporações linguísticas são os termos vuvuzela e jabulani. Ora, um campeonato esportivo mundial pode inovar tanto assim o léxico nacional? Certamente que sim. Linguistas os mais diversos – apesar de eventuais divergências – concordam quanto à sua amplitude e à sua flexibilidade. Alguns, inclusive, defendem que o léxico – analogicamente à sintaxe – é suscetível de claras transformações em seu contexto, por vezes, metamorfoses sociais de toda uma comunidade, o que se configura em atualização, em não-conservadorismo, em renovação para uma língua.

No caso de uma língua como a nossa, tão vasta e peculiar, muitos foram os modismos e empréstimos linguísticos, creio que agregados em função da influência de temporalidades socioculturais. De 15 mil palavras durante a Idade Média até as 400 mil “computadas” atualmente, o Português passou por significativa ampliação, no acolhimento gradual de estrangeirismos e empréstimos de linguagem. Ao longo de séculos, importamos termos de idiomas de diversos povos, cujas culturas se mesclaram às nossas, de algum modo. Assim foi que ganhamos e adotamos expressões do Francês, do Inglês, do Árabe e do Italiano. Ora, o homem e seu idioma se adaptam às modificações de seu meio. Assim como facilmente detectamos o elemento arquitetônico francês na paisagem urbana do Rio de Janeiro, vemos também claros reflexos estrangeiros – por vezes sazonais – na linguagem, na roupagem do idioma. Parece bastante natural que a influência das artes e das línguas sofram (ou acolham?) o choque da aculturação, da mescla saudável e complementar da fusão de povos. Não por acaso já incorporamos vocábulos de modo tão agregador que sua aderência à nossa língua já se fez natural, e certas conotações estrangeiras já foram banidas de nosso entendimento espontâneo. Alguns dos maiores clássicos (abat-jour/abajur, chauffer/chofer, atelier/ateliê, buffet/bufê, shampoo/xampu, sandwich/sanduíche, football/futebol) demonstram bem isso. Nesse sentido, chega a ser incompreensível a opinião de Rui Barbosa ante o condenável galicismo de Eça de Queirós. Salvo o devido respeito ao mais que notável Águia de Haia, não é possível concordar com as restrições por ele impostas quanto à adoção e ao uso de elementos de outros idiomas no contexto da língua portuguesa. O que não dizer, então, do arbitrário projeto de lei – na atualidade brasileira! – intentando o fim da incorporação de qualquer estrangeirismo ao nosso idioma? Como no já quase vício-expressionismo linguístico: sem comentários.

De Rui até a era da Internet, então, a influência e o ingresso em nossa língua de termos advindos de outros idiomas e culturas se deram de modo tão vasto e galopante que hoje um sem-fim de termos cotidianos remete a outras etimologias. Aqui se lembre que, ao tempo do grande jurisconsulto e filólogo, os vocábulos em português se mantinham num universo quantitativo de 90.000 vocábulos. Cerca de cem anos depois, a quintuplicação desse número dá conta de uma avalanche de novidades linguísticas – distribuídas em glossários tão específicos quanto variados – capazes de alcançarem o interesse de qualquer sábio! Desde o âmbito de recursos humanos, produção e marketing (empowerment, benckmarking, headhunter, coach, lean production, downsizing, stock options etc.) até a tão propalada área de tecnologia/informática (download, backup, setup, bitmap, firewall, hardware, software, netscape, usenet, e-mail, e-commerce, login, log off, hacher, cracker etc.), os glossários específicos no idioma universal passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros. E, obviamente, se torna impossível não abarcar tais inovações, afinal constituem terminologias já inerentes à nossa prática diária de ações. Você, por exemplo, acha absolutamente normal falar mouse, claro, como se este vocábulo fosse "um dos nossos". Aderência natural.

Além da necessidade de se nominar esse sem-número de tecnologias que invadem a atualidade, também chamam a atenção implementações ocasionais. Voltando à vuvuzela e à jabulani, são exemplos típicos das tais novidades linguísticas que – no caso por influência de contexto e evento – se incorporam à fala e à escrita cotidianas. Em vez de vuvuzela, o nome de atribuição ao (irritante) instrumento sonoro poderia continuar sendo, simplesmente, corneta. Mas poderosas influências mundiais de marketing, oportunamente, conseguiram imprimir ao objeto já conhecido toda uma conotação (e denotação) contextual, na intenção de que o vocábulo expressasse um momento, um local, uma forma de expressão aclamadora, voz de torcida, emoção coletiva. E isso com características genuínas de seu “berço” (vuvuzela é um vocábulo da língua banta zulu – isiZulu –, uma das 11 da África do Sul), no nome e no significado, já que o instrumento de som também teria sua origem no país da Copa do Mundo de Futebol 2010. Precursoramente confeccionada por tribos ancestrais sul-africanas, tinha no início a função de chamar as pessoas para reuniões. Agora tão oportunamente difundida num mundial esportivo, seu uso remonta também, em tempos recentes, aos famosos jogos das equipes de futebol sul-africano. Assim – tal como na sentença latina que inicia este texto –, o nome acompanha o objeto. E na incorporação da personal corneta aos jogos da Copa, veio de encomenda o seu nome, peculiar e característico, configurando hoje modismo linguístico atualíssimo no Brasil do futebol.

E a jabulani (aqui, já com j minúsculo, uma vez alçado o vocábulo à condição de substantivo)? Esta também tem a África do Sul como berço, sobremaneira, inspirador. Trazendo, em suas onze cores, a representação das diversas etnias e dos dialetos sul-africanos, a bola – de consistência leve – também traz no significado do nome a leveza da festa esportiva, significando celebração. Por certo, a nominação não poderia ser melhor, já que evoca a participativa competição esportiva que congrega 32 países, na fusão simbólica, vocabular, solidária e ideológica de diferentes nações.

Em meio a toda essa festa linguística internacional, a melhor lição do que se poderia chamar de internacionalidade linguística – que nada atenta contra a supremacia de um idioma – é a função de enriquecimento de línguas e culturas quando entrelaçadas. No fim de contas, quando dialogam duas línguas entre si, heranças múltiplas e milenares poderão surgir de elementares interseções. Então, não chamemos de cabal utopia o sonho (utópico mesmo, mas com aspectos consideráveis) de Lennon. Nem deixemos de acreditar na profecia de Gilberto Freyre: quem sabe o Inglês não incorporará, algum dia, o nosso personal vocábulo saudade? Depois de – em contrapartida à importação de vocábulos – podermos constatar portuguesismos lá fora, tudo é possível!... Haja vista a exportação de samba e bossa nova (não me refiro aos ritmos e, sim, às palavras que os designam). Divagações à parte, o bom mesmo é celebrar – preferencialmente com todas as letras, em diversas expressões idiomáticas – a festa ideológica da coesão! Afinal, a soma sempre redunda em crescimento, em amplitude. E no universo idiomático isso não pode ser diferente.

Por Sayonara Salvioli

P.S.: Você pode estar se perguntando por que eu, em minhas registradas preleções filológicas, ao me referir a modismos linguísticos não falei de gírias ou dos tais surtos ocasionais de expressões (indevidas) que viram moda. Quanto às primeiras – as já consagradas em contextos socioculturais de uma época, as populares gírias, isso é matéria para um post inteiro, ante a opulência e diversidade do tema! E sobre os tais surtos de expressões, modismos indesejáveis, lembro aqui o reiterado uso de a nível de (erroneamente, inclusive), a/essa coisa de (lembra-se?), no sentido de (em vez do uso simples e adequado da preposição para) etc. Exemplos como estes últimos, na minha opinião, resultam em usos equivocados e massivos, muito mais se aproximando de feições viciosas de linguagem, na forma e no conteúdo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A beleza comove



Descobri, há pouco tempo, que a beleza comove. Tive esse insight no cinema.
Você pode pensar que tenho mania de teorizar tudo, mas o que me move nesse sentido é a constatação de determinado axioma – que ainda não foi detectado – diante de situações as mais variadas. Essa ideia, por exemplo, de que a beleza comove tem suas bases no fato de nos enlevarmos diante do belo, de tal modo que aquilo nos atinja em cheio. Talvez seja por isso – apreendi – que gostamos tanto daquilo que é bonito: porque tal objeto nos agrada tão profundamente que vai habitar o âmago de nossos desejos. Note, a respeito, o que você sente quando olha a paisagem de um lago na Itália, uma obra de arte, a foto de um bebê de revista ou a belíssima fotografia de um filme de amor. Eu já ouvi alguém dizer, por exemplo, que quando está em Roma, diante de tanta beleza, se sente tão feliz que é como se tivesse a alma elevada, o que faz brotar em seu rosto um espontâneo sorriso, de deslumbre, de enlevo! Essa é, sem dúvida, uma acepção da tal beleza comovente.
Em outra linha de percepção da chamada beleza, você pode sentir algo semelhante ao se deparar com a cena de seu astro de cinema predileto ou, meramente, de alguém de seu círculo que você admira ou de quem você gosta sem fazer força. O mesmo poder da beleza você sente diante de uma vitrine, onde se expõem objetos de seu desejo, aqueles elementos materiais que fazem parte do seu chamado sonho de consumo. São estes, em princípio, objetos belos, que lhe fazem bem ao olhá-los. Que mulher não fica feliz, por exemplo, ao contemplar um colar ou adereços reais, majestosos, numa joalheria ou num museu? Quantas vezes você, mulher, não está cheia de pressa num shopping, com os minutos contados para algum compromisso, mas ao ver uma roupa bonita em uma vitrine, volta alguns passos somente para admirá-la, mesmo sabendo que não terá tempo sequer de experimentá-la? Nesses momentos de contemplação, a tal convencionada – e admirada – beleza lhe traz, talvez em mensagens subliminares, o ímpeto ou a necessidade de aquisição. E é esse desejo de tomar tais coisas para si que comprova a inegável sedução da beleza.
Todas essas situações têm uma coisa em comum: o fato simples de a beleza que você vê poder conduzi-lo a algum tipo de sentimento. E é por isso que eu digo que a beleza comove. Você talvez nem saiba por que aquela visão lhe agrada tanto, mas – se fizer uma autoanálise – poderá descobrir que é porque ela penetra a sua comoção, de alguma forma.
O belo causa comoção na medida em que certa visão lhe apascenta a alma, e, assim, momentaneamente lhe traz algum tipo de paz, felicidade, aconhego... e lhe retorna ocasionalmente à lembrança! Belo que é belo, na sua acepção verdadeira, tem o poder de chamar fortemente a sua atenção, imiscuir-se na intimidade de seu pensamento e instalar-se na casa de sua memória. É por isso que acredito que o belo atrai as pessoas, não simplesmente pela plástica da imagística, mas sobretudo porque pressupõe uma carga imensa de emoções decorrentes. A força da beleza, pois, consiste nas consequências de proximidade e atração que a sua impressão traz. Seus olhos absorvem determinada visão na contemplação-comoção que, de tão bela a seu ver – enfatize-se ainda uma vez –, abarca toda a sua alma!... Por isso é que tal beleza impressiona tanto.
Entendi isso quando parei para pensar – reitere-se – por que as pessoas, por vezes, ficam tão enlevadas diante de um objeto, imagem ou pessoa. Ora, porque esse objeto, imagem e pessoa não são apenas bonitos e ponto. Não basta que seu objeto de desejo seja bonito apenas: tal objeto precisa ser bonito mais além, na extensão da percepção, do sentimento e da adoção, por parte da pessoa que vê, desse paradigma de beleza singular. Deve ser por isso que uma estrela pop, por exemplo, é capaz de angariar fãs, atrair multidões e estimular a aquisição de produtos com a sua marca. Tudo por causa, primariamente, do carisma emanado por sua personal beleza. Sim, porque a mensagem subliminar da beleza estabelece uma codificação imediata com a sensibilidade do espectador-admirador. Então a beleza o faz viajar na apreciação daquele sorriso, daquele olhar, daquele brilho imenso que caracteriza tal imagem. E deve vir acompanhada de qualidades outras, aquelas que implicitamente se fazem sentir a partir da bela acepção inicial de seus olhos.
Após tantas especulações, creio que se possa dizer que a beleza – a verdadeira – passa uma mensagem implícita de atração e adesão. Não por acaso os helenos criaram protótipos artísticos de estética e encheram seus palácios e templos de representações belas do humano. E até hoje você e eu, quando ouvimos falar da Grécia Antiga, logo somos reportados à imagem da beleza.
Falando nisso, logo me vem à mente – provindo direto do imaginário greco-romano – o mito de Narciso, encantado que ficou com a sua própria imagem refletida no lago. O nome Narciso, aliás – originário do vocábulo grego narcose – significa entorpecimento, ou a possibilidade de algo nos narcotizar, nos envolver numa espécie de torpor ou encantamento. E aqui se realce, ainda uma vez, a comoção causada pela beleza, vista aqui por um outro ângulo, já que a minha premissa básica nesse silogismo se refere à beleza que contemplamos no exterior, ou seja, para muito além de nós mesmos. Aliás, nesse sentido se posicionou Mc Luhan, que afirmou, a respeito, que os seres humanos se encantam por algo externo, uma extensão de si mesmos, em qualquer material ou existência que não sejam eles próprios. Ou seja, buscamos essa beleza-fascinação para além de nossos olhos. Assim, o filósofo-educador sustentou que Narciso viu algo a mais naquele mítico lago: ele teria enxergado não a si próprio, mas a extensão do próprio homem. Nesse sentido, creio que possamos dizer haver Narciso se fascinado com a imagem refletora do ser humano. Comoveu-se, pois, com a beleza humana.
Ninguém, afinal – pelo menos em princípio – poderia dizer que não aprecia o belo, visto ser este uma emanação ou captação do sentimento do mundo. As pessoas, muito naturalmente, gostam de estar num lugar bonito, de habitar um ambiente enfeitado com belezas, de vestir roupas bonitas, de apreciar pessoas igualmente belas, dessas que apascentam o olhar...
Não estou aqui dizendo que o convencionadamente belo é o que há de mais importante. Não é isso. Ele precisa de acessórios, qualidades outras, que devem pressupor, por exemplo, atributos refletores de beleza interna. Note aqui que até as qualidades ditas de espírito – que nada têm a ver com aparência – na hora de serem nominadas, recebem o nome genérico de beleza interna. Se preconcebemos isso como verdade absoluta, deve ser porque não gostamos ou não aceitamos como bens e desejos objetos que não sejam belos, afinal todos buscam o belo na infinitude do olhar. E nem é preciso ser um esteta para isso. Quando se é, então...
Lendo esse meu pensamento – será que é mesmo uma descoberta digna de teorização? – você definiu o tal sentimento de beleza? Sim, porque a beleza é, antes de tudo, um sentimento, cuja contemplação é ditada por um seu direcionado olhar. Identificou-se, pois, com o tal sentir? Relacionou aí na sua lista de lembranças algo que, de tão belo, atingiu o seu sentimento? Se a resposta for positiva, você concorda comigo que a beleza comove. Sinceramente, eu acho mesmo que sim.


Por Sayonara Salvioli




quarta-feira, 23 de junho de 2010

O QUE FICA PARA SEMPRE...


Quando morre um escritor, é como se o mundo ficasse mais vazio... E fica mesmo: forma-se um vão temporário daqueles sentimentos e expressões que, peculiarmente, aquele artista das letras possuía. O mundo fica mais triste, e as pessoas – seja de que área da diversidade humana forem – adotam um emblema de luto respeitoso, de silêncio reverente. Afinal, um escritor normalmente tem a peculiaridade de emocionar, de aproximar os espíritos humanos. E, por isso, é como uma dádiva para as pessoas: estimula, esclarece, embevece e aquieta os corações.
Lembro-me, com perfeição, de quando morreram Drummond e Vinícius. O mineiro de Itabira deixou a esfera terrena quando eu forçosamente saia da adolescência; já o poetinha partiu quando eu era ainda criança. Mas ambos deixaram, no momento em que se foram, um vácuo em meu coração. Na verdade, era como se os conhecesse, já que viajara tanto na sua emoção, passeando pelos recônditos mais profundos de sua sensibilidade. Da morte de Drummond eu soube pela TV; uma reportagem do Jornal da Globo trazia alguns de seus versos e lembranças mais notáveis. E eu lamentei profundamente não tê-lo conhecido. Esbocei-lhe alguns versos e descerrei sentidas lágrimas. E em 1980, em julho de 80, o mundo perdia o homem Vinícius. Sim, porque o poeta – apelidado imorredouramente de poetinha – este viveria (reinaria) para sempre! Nos versos e canções, na prosa elegante, profunda e sofisticada. Vinícius vive e revive cada vez que se escuta Bossa Nova, que a garota de Ipanema vai ao mar aqui ou toca em Nova York. Tudo será infinito enquanto durar, ou seja, no tempo vasto do sempre. E é nessa temporalidade, a um só tempo relativa e absoluta, que o vate me encanta. E descubro, mais e mais a cada dia, como ele tinha razão!...
Essas duas mortes – do itabirano ferrenho e do carioca boêmio – me marcaram com a agudeza das lembranças fortes das tristezas inevitáveis.
E agora morreu Saramago, um escritor-mago da nossa contemporaneidade atribulada. Considerado o grande artífice do reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa, o escritor tratou de temas históricos, sociais e impasses do mundo com uma pena extremamente personal, capaz de registrar em sépia as diversas nuances do espírito humano. Coerente e lúcido, foi – segundo o crítico norte-americano Harold Bloom – um dos últimos gigantes do gênero romance nas sociedades contemporâneas. E Saramago acreditava nos faltar o exercício mais amplo e continuado do pensamento (“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”). Com esse enfoque analítico, foi um dos grandes e atuais proponentes artísticos da reflexão e da filosofia, com conteúdo e proposta. Ao falar do que sabia, sabia como fazê-lo. E nos levava em seu passeio, nos enredava em seu enleio. E a ficção se fazia mais realidade e oportunidade. Oralidade e retórica como que condensadas a serviço da escrita.
Percebi que o mundo se emocionou bastante com a morte do célebre e admirável escritor português – um Prêmio Nobel de Literatura –, um arauto contemporâneo de dilemas de contexto. Mas também – creio veementemente! – que se pôde entender o quanto dele permanece entre nós, algo como uma sombra projetada junto à cadência ritmada do caminhante: deixou os vestígios, em suas obras – seus pensamentos, suas ideologias –, que irão nos conduzir nas buscas e descobertas de mundo.
Enfim, Drummond, Vinícius e Saramago – e quaisquer que sejam os ícones imortais das letras, tornados luzes na nossa acepção intelectual de todos os dias –, eles reinarão para sempre: na página, na nossa mente analítica e na nossa emoção de leitores – ávidos, férvidos, apaixonados!...

Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tributo a Graham Bell


Poucos inventores da humanidade me parecem ter tanto mérito quanto Alexander Graham Bell. Apesar da controvérsia histórica entre ele e o italiano Antônio Meucci – que teria, supostamente, vendido a patente do telefone para Graham Bell –, a ele continuo creditando a minha telealegria na constância dos dias.
Ora, nem mesmo posso imaginar como seria o mundo sem telefone, pois entendo que, tecnologicamente, ele é a medida mais próxima de uma saudade, de um reencontro, de um anúncio de vitória, de um comunicado de simples ou importante notícia. Mesmo na era da virtualidade – em que a web parece demarcar todos os caminhos possíveis – ainda pego o atalho da voz que se escuta a distância, pelo fio da telecomunicação. Para mim, nada substitui o “tempo real” de uma discagem imediata, dessas que trazem o interlocutor para tão perto que é como se ele compartilhasse o espaço-tempo presente. Meus pais moram a 300 Km de distância (sou filha única) e me sinto próxima deles graças ao telefone, que nos interliga cerca de cinco vezes por dia.
Aqui se lembre que as novas implementações e plataformas congêneres – todas! – partiram da ideia precursora de Graham Bell. Quanto ao significado de virtualidade, antes mesmo que o termo fosse aplicado com a acepção que tem hoje, o utilizei e absorvi, de antemão. Trabalhei, desde há muito, as amplas potencialidades da web. Considero-me, assim, uma boa adepta da filosofia do internauta. Mas faço uso convencional do telefone, independentemente de novas acoplagens que são feitas hoje, na mesclagem interativa de instrumentos de comunicação. Nunca abandonei a antiga mania de acessar o “objeto de desejo a distância”, teclando os números do acesso imediato. É claro que o e-mail e seus similares (mensagens do FB, conversas por msn) – sem os quais já não se pode ficar – constituem uma revolução de costumes, mas, em certos casos, nada como a voz e a presença que se detectam de imediato. E isso, mesmo que sob novos formatos (o skype, por exemplo, com a implementação da imagem), é, sem dúvida, a grande herança de Graham Bell, meu cientista benfeitor predileto.
Tenho dois telefones residenciais e dois celulares. Há pessoas que me perguntam: “Mas para que tanto telefone?” Para me comunicar, ora. Necessito disso como quem precisa de complementos de energias: preciso da voz que está do outro lado, necessito da notícia que se situa a quilômetros de distância...
Também sou daquelas pessoas que ligam para os amigos só para saber se estão bem, o que se passa em seu cotidiano, se há algo de novo e revolucionário em suas vidas para contar!... Não ligo, como a maioria das pessoas (segundo dizia Vinícius), para pedir algum favor ou falar de algo exclusivamente meu, e sim para saber, simplesmente, como vai aquela pessoa... Ainda segundo o poetinha – que, você há de convir, é um parâmetro e tanto! –, esse interesse espontâneo sobre as pessoas configura qualidade rara (e olhe que eu nem imaginava tanto... pensava até ser normal a atitude), estabelecendo-se somente entre amigos de verdade. E, com toda a honestidade, acho que sou uma boa adepta da manutenção desse liame, dessa corrente de lealdade que não se perde com a distância. Assim, apesar de eu ser um pouco cíclica em minhas aparições mesmo entre as pessoas diletas (leia-se aqui o meu sumiço ocasional), sempre reapareço, de preferência com um longo e detalhado telefonema – horas a fio no fio de Graham Bell!
Hoje mesmo tenho uma lista que suplanta meia dúzia de amigos queridos com os quais necessito manter contato urgente. Dentre eles, uma amiga que aniversariará no segundo decanato de julho, e cujo aniversário não esperarei chegar para ouvir a sua voz. Aqui também lembro uma outra amiga que, depois de uns dois anos sem conviver comigo (compartilhávamos a rotina colegial), me ligou e ficou, pacientemente, me escutando (ela é muito introspectiva)... até que eu dissesse: Mas fala você um pouco agora... Estou aqui falando o tempo todo e você sequer pôde me contar o que talvez deseje! Ao que ela disse: Não, não; fala você. Eu liguei pra isso mesmo: pra te escutar! Bonito, não? E aí eu falei e falei, como é de meu feitio, e demos boas risadas.
Já passei, literalmente, horas seguidas matando saudades de amigos e familiares por telefone, ante a narração de detalhes os mais efusivos!... E penso que – em pontos equidistantes – nenhuma ligação pode ser mais forte e cristalina que a propiciada pelo inaugural telefone. Afinal, a ideia da comunicação a distância surgiu do engenho de Graham Bell. E a telecomunicação é, sem dúvida – na esteira das grandes deduções e invenções humanas – o instrumento mais próximo de duas realidades opostamente espaciais. Afinal, notas e arquivos sonoros parecem guardar todo o DNA de fraternas e emblemáticas relações humanas...
No fim de contas – mesmo com os novos apetrechos comunicacionais –, quando a saudade aperta, a preocupação é grande, a notícia é urgente ou o comunicado é importante, todos recorrem mesmo ao velho e bom telefone... Teclam-se com rapidez e energia os números da mágica telecomunicacional e, instantaneamente, se dá o recado, e em decorrência... se comunica o fato, se consuma o ato, se assina o contrato... se dissipa a dúvida, se esclarece o momento e se providenciam soluções, encontros, reuniões, possibilidades!
Meu tributo, pois, a Graham Bell, por esse serviço inestimável que ele prestou à humanidade! Todos elogiam tantos ícones da Ciência... e ele passa batido, esquecido até quando... toca o telefone! Que se faça, afinal, justiça a seu prodígio!
Por Sayonara Salvioli

P.S.: Que tal se, em vez de endeusarmos ícones de ciência e tecnologia mais recentes, recorrêssemos à lembrança de verdadeiros precursores de épocas de obscurantismo, que - como Graham Bell - contribuíram para melhorar o mundo? Thomas Alva Edison, por exemplo. Você já parou para pensar em como seria o mundo atual, seu trabalho, sua casa... sem os fios da eletricidade, que conectam seu cotidiano a todas as parafarnélias sem as quais você não saberia viver... a começar por este computador aqui?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Confirmando Goethe



Dentre as célebres sentenças do genial escritor e pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe, talvez não se lhe atribua, comumente, aquela em que ele fala da amizade comparando-a aos títulos honoríficos: “...quanto mais velha, mais preciosa”.

Eu era bem pequena quando a li, pela primeira vez, num livro de pensamentos. Lembro-me que, no mesmo instante, me pus a pensar sobre a profundidade daquela reflexão. E, apesar da natural inconsistência infantil, desde aquele momento procurei valorar as amizades e os sentimentos sólidos, datados, com certificado de autenticidade e selo de ouro. Pensei, primeiro, na minha família; depois nos amigos da escola e, por fim, nas pessoas que conviviam comigo – em casa, no bairro, na cidade – e que me faziam tão bem.

Você pode estar imaginando se uma criança pode pensar tais coisas, ao que respondo: pode, sim. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e já tinha opiniões e vontades razoavelmente firmes para a idade; já lia alguns clássicos da Literatura e, mesmo, exercia meus desejos mais veementes junto a meus pais. E esses atos não constituiriam algum tipo de vantagem extraordinária se comparados ao que vemos hoje nas crianças, em sua apreensão e evolução cibernética, por exemplo. Contudo, afora tudo isso, o mais importante para essa discussão é o teor de profundidade – de análise ou sentimento – que se pode atribuir a uma verdadeira amizade, dessas que se alicerçam na distância dos anos. Falo também daquela nostalgia boa e suave que rememora a turma do colegial, as alegrias insubstituíveis de uma época!

Foi em alusão à sentença de Goethe que ontem relembrei velhas e adoráveis amizades, que realmente não se perderam na linha do tempo! E, por incrível coincidência, um dos amigos de que mais me lembrei (aquele engraçadíssimo, que fazia a turma inteira rir!) – e com quem não falava havia aanoosss! – me ligou hoje. Disse-me: Lembrei-me muito de você ontem. Senti que precisava te ligar. Não é incrível? Pois já estou até acostumada a tais arroubos intuitivos... Mas a prévia intuição não diminuiu o impacto da surpresa do dia. E ali estávamos nós, meu velho amigo e eu, relembrando alegrias e abobrinhas antigas pelo fio de Graham Bell (aliás, a este devo um post gigantesco!).

E meu amigo de escola, trazido num fio de saudade pela ternura dos anos, me fez pensar numa grande galeria de amigos – revi seus rostos e atitudes na lembrança –, todos (e individualmente) marcados por suas características pessoais tão definidas. E atentei para o fato feliz de gostar das pessoas por seus atributos pessoais, suas qualidades próprias e notáveis. Afinal, quão fascinante é o registro de individualidade nos humanos! Já parou para pensar no quanto ama seu amigos por tais e tais qualidades – e até defeitos?! – que lhes são inerentes, especialmente aquela característica que cada qual – e só ele – possui? Ri sozinha ao lembrar de vários desses amigos que se mantêm na minha lembrança, habitando ainda meus sentimentos... Lembrei-me do amigo-bem-mais-que-engraçado (que reapareceu ainda mais pândego), o extremamente sensato, que tudo ponderava e previa – e quase nunca errava(!); o dinamicamente elétrico, quase capaz de reconstruir o mundo em apenas um dia da semana (risos); o maluco de pedra; o gentil e solícito, educadíssimo(!); o solidário e confidente; o fofoqueiro (que atualizava a turma com as news de todos); o estatístico preciso (sabia medir o grau de cada coisa ou evento); o contador de histórias; o defensor dos oprimidos; o pessimista (seguidor-mor da Lei de Murphy); o lunático (vivia fora do mundo), o genialmente criativo... Todos unidos pelo elo mágico da lembrança... dos aniversários, das aventuras de férias, daquela risadaria em sala de aula, daquela sessão do Grêmio, daquela gincana explosiva, do teatro da turma, da banda de rock do melhor amigo, da excursão inesquecível, das aulas cabuladas (eu nunca fazia isso), da festa de formatura! Todos delimitados, tão-somente, pela linha constante da amizade plena, a tal honorífica, que mesmo a distância nunca morre... Feliz daquele que tem amigos assim! Ou de quem simplesmente pode relembrá-los, pois isso é coisa que o acompanha para o resto da vida! Goethe que o diga...


Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Elogio da verdade



Um bom elogio é um presente dado de coração. E normalmente é exclusivo, personal, feito só para você!

Já ouvi, muitas vezes, que – da mesma forma que necessitamos reconhecer nossas falhas como seres humanos – precisamos também saber receber elogios. Com certeza, é preciso acreditar naquilo que nos afirmam com todas as letras, pois tal deve ser expressão da verdade.

Cientistas, literatos e outros intelectuais brilhantes, por exemplo, são muito exigentes consigo mesmos: ponderam todos os aspectos e consideram todas as hipóteses, menos as que beneficiam diretamente o seu eu. A questão a ser vista, no entanto, é que às vezes tantos cuidados funcionam como uma automáscara: não raro, pessoas belíssimas e de altíssimo valor desconsideram suas qualidades mais notáveis. De vez em quando me deparo com pessoas (valiosíssimas) assim!...

Também é preciso considerar que elogios tanto são mais altos em atribuições quanto os padrões daqueles em quem são suscitados. Assim, um diamante raro será melhor visto por olhos lapidados, de quem sabe o que vê e valoriza isso. Normalmente, enxerga bem quem possui visão acurada. E quanto mais exige do mundo e das pessoas, mais alguém eleva os olhos ao alto buscando a magnitude do ser – premissa única.

Creio que esses raciocínios se apliquem a tudo. Em âmbito profissional, por exemplo, altos valores só podem ser reconhecidos por seus pares, talentos congêneres com capacidade para interpretarem e absorverem a essência de seu trabalho. Ora, quem não conhece profundamente a matéria do que você faz, certamente, não pode avaliar o nível qualitativo de sua obra.

Na arte, creio, são exigidos do espectador certos conhecimentos, olhos e sensibilidade. Na compreensão das ciências, aqui se elenquem a importância de vertentes analíticas que vão do empírico ao histórico-hermenêutico e ao dialético...

E nos relacionamentos – na observação e na análise involuntária do outro – não poderia ser diferente: há que se ter uma boa base, um patamar pessoal, para enxergar o que vai além de si mesmo. Assim é que deve ver bem o belo quem tem lentes apuradas para a beleza; só pode se ofuscar alguém com algum brilho se os seus olhos não se contentam com pouco e buscam mais; só se acha o espírito quando se o procura perseverantemente, vasculhando-se as imensidões da alma. Não que a beleza esteja apenas nos olhos de quem vê. Não, não é isso! O belo e o grande estão ali para serem admirados e – de qualquer modo – a grande maioria poderá e deverá enxergá-los. O que difere, talvez, seja o nível de mensuração – de indivíduo para indivíduo – para essa beleza e essa grandeza. Também é interessante lembrar que os modos de expressão dessa medição, em seu teor e profundidade, tipificam a natureza e o grau da admiração dos referidos dons qualificativos. O elogiador eleva-se do tamanho de si mesmo para enxergar o que se lhe suplanta em essência, mas que ele deseja encontrar para admirar.

Semelhante a isso é a máxima com que nos presenteou Machado de Assis (no caso, se referindo à categoria feminina): “Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo”. E ele explicou que aqueles capazes de alcançá-las são os mais especiais e valentes, os que podem chegar, sem medo de prejuízos e quedas, ao topo absoluto das árvores. Com certeza, isso também se aplica aos homens e, nessa esteira, aos seres humanos genericamente. Ora, se você, leitor, é elogiado ou valorizado, não há por que não considerar o elogio da verdade, aquele manifesto de espírito das pessoas que exigem muito do ser humano, que querem o melhor do melhor e, por isso, encontraram correspondência em você: na sua personalidade, na sua aparência, no seu conjunto pessoal. Da mesma forma, aceite os elogios por suas ações, por seu trabalho, por seus méritos reconhecidos. Foram ofertados de modo direcionado e espontâneo. Receba-os e reconheça sua lisura nos olhos e nas palavras de quem os oferta. Provavelmente – creio que na maior parte das circunstâncias – se advindos de alguém de espírito (e não de almas rasas), serão verdade. E se o resto do mundo não sabe como manifestá-lo, embora também o ache, problema do resto do mundo. O fato é que você, notadamente, é e pode ser tudo aquilo de bom que alguns – e talvez muitos ou todos (e você nem sabe!) - dizem a seu respeito.

Portanto, na hora de ouvir belas palavras, espere e dê o tempo preciso de seu recebimento, afinal saber receber elogios pode ser tão importante quanto saber elogiar! Às vezes ficamos tímidos e – no momento em que tais tributos nos são oferecidos – agradecemos rapidamente, nem mesmo deixando que o interlocutor complete seu pensamento. Ora, quem disse que tudo aquilo não é a mais absoluta verdade? Por que você deve ficar constrangido se reconhecem seus valores? Deve saber de seus atributos, mas talvez – até pela sua grandeza pessoal – seu espírito se revista de uma modéstia, desnecessária, diga-se de passagem. Não seja, pois, modesto! Sua grandeza não necessita disso. Talvez você seja mesmo um desses maravilhosos seres humanos que até têm o direito franco da imodéstia. Porque pessoas assim existem, acredite!

Falamos de receber elogios. E quanto a fazer, como proceder? Eu tenho, a respeito, um pensamento inflexível sobre isso: só sei elogiar quem e o que admiro. Faço-o com efusividade, em prosa e verso. Caso contrário, opto pelo silêncio e pelo estágio amorfo das palavras.


Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma questão de empatia


UMA QUESTÃO DE EMPATIA

Lendo algumas crônicas e os mais diversos fatos noticiosos – ambientados no meio voraz da convivência humana – e, mesmo, olhando para dentro de mim, cheguei à conclusão de que um sentimento pouco visto entre as pessoas é a empatia.

Falo da empatia pura e simples, mas quase nada exercitada pelos humanos. Ao refletir sobre a questão, inclusive, me cobrei fortemente, descobrindo com perplexidade que também não tenho usado muito essa arte-qualidade entre os meus. De mim para mim, não acreditei quando percebi o quanto estou em falta com pessoas que me amam, pelo fato de eu não usar, costumeiramente, a empatia em relação a elas.
Acho francamente que esse é um exercício que preciso cultivar, com seriedade e profusão. Preciso olhar à minha volta com a mesma acuidade com que vejo minhas próprias questões e promulgo minhas necessidades pessoais. Ora, todos temos alegrias, sonhos, medos, expectativas, preocupações e ímpetos, todo o tempo. Por que, então, só o nosso universo merece atenção? Sem dúvida, é muito fácil falar sobre algo por que outra pessoa passa, mas será que você se esforça para entender sua posição? Já parou para pensar no que o outro está pensando ou sentindo? Como mãe ou pai, irmão, filho ou amigo, até que ponto cada um é capaz de sair de si mesmo para adentrar o terreno distante e exclusivo de outra individualidade? Sim, em princípio, o ser humano é individual, porém, desde o neolítico tem se agrupado para viver. E isso se acentua gradativamente – aumentando sua esfera de necessidade – com o passar do tempo e as novidades surgidas no mundo. Da família até as atuais redes sociais mundiais, se faz imperiosa a importância do outro.
E, voltando ao meu próprio “umbigo conceitual da vez”, por que não escuto às vezes palavras que me são ditas claramente, mas a cuja audição faço ouvidos moucos de “mercadora de minha oportunizada vontade”? Por que tenho promulgado, por vezes, sentenças absolutistas para pessoas que amo profundamente? Ameniza essa minha autocrítica reflexiva, apenas, o fato de eu constatar ser esse um mal da espécie humana e das sociedades (e não somente a contemporânea, como muitos pressuporiam). A humanidade não se importa com a divisa do outro em quaisquer situações, desde as mais simples teias de relacionamento àquelas menos profundas. Prova cabal disso é o não respeito à própria vida alheia, que culmina em barbáries e assassinatos. Não fosse assim, seriam desnecessários códigos penais; legislação alguma existiria. Isso se, numa utopia mundial, se levassem em conta as sensações e os sentimentos daquele que existe além do próprio eu. Se o adversário se colocasse no lugar do receptor de sua agressão, tomando para si previamente a dor física do outro, talvez não chegasse a aplicar o golpe. Isso parece óbvio demais, mas na verdade seria fórmula certa para se evitarem os grandes males do coexistir. E, em terreno sentimental e de interação, pense o quanto facilitaria a convivência se escutássemos ou pudéssemos prever o que vai além de nossos próprios sentimentos... Atingir a sensibilidade do outro, e respeitá-la, eis a simplista medida! E assim se trabalharia a soberania, ou melhor, a isonomia de universos além do nosso. Tudo em medidas equânimes de justeza e razoabilidade.

Não faço aqui um intencionado ataque ao solipsismo. Mas é claro que o rebato, afinal ninguém pode ser uma ilha de si mesmo. Porém, filosofias sartrianas, hegelianas e significações imaginárias à parte, apenas estou questionando em mim mesma a linha tênue entre a subjetividade e o terreno pouco sondável do outrem. Em que nível rizomático, afinal, se encontram as relações mais profundas de indivíduo para indivíduo?

O cinema já se utilizou, por diversas vezes, de recursos de empatia absoluta – uma espécie de transposição físico-pessoal – para justificar essa necessidade de ”alcance do outro” (Vice-versa, De repente 30, Tal pai, tal filho, Sexta-feira muito louca, Se eu fosse você e Se eu fosse você II, entre outros). Nesses casos, a compreensão do externo foi além do plausível quando experiências sensoriais e, mesmo, metafísicas permitiram que um sentisse exatamente o que o outro sentia antes, em entrelaçamento e troca de seus corpos físicos e consciências. Sem dúvida, tais painéis se mostram muito interessantes – e aguçam mesmo a nossa imaginação! No entanto, para se exercitar uma empatia simples, não é necessário penetrar o campo da ficção: pai trocando de físico/personalidade com filho, mãe “alternando ego” com filha adolescente, cônjuges invertendo seus papéis etc. Nem mesmo é preciso buscar experimentos inimagináveis no arrojo da ciência – como no caso dos neurocientistas suecos do Instituto Karolinska, Estocolmo – que utilizaram capacetes de realidade virtual para demonstrar que é plausível um indivíduo sentir outro corpo como se fosse seu, tendo a sensação de estar a sua consciência em outro lugar, como se num jogo ou experiência de imersão virtual... Não, não é preciso tanto! Basta buscar a empatia no terreno do humanamente possível.

Divagações científicas ou éticas à parte, o poder que nos é inerente, de fato, já serve de consolo e possibilidade: a tentativa apenas emocional da compreensão alheia. O fato de pararmos para pensar por que razão aquele amigo anda introspectivo, com ar grave, ou se o próprio filho está fazendo um curso de que não gosta. Atenções simples, mas que só podem ser desbravadas e, consequentemente, melhorar as relações se for usado o critério da empatia. Psicologicamente, ao menos, é permissível ao humano em seu atual estágio de desenvolvimento (como nos anteriores) uma empatia natural, no desejo pleno de se sentir na pele de alguém, vivenciando seus prazeres e mazelas. Pode ser difícil, mas é possível construir uma estrada, uma ponte para o outro.

Em termos socioculturais, entretanto, o mundo é tão canibal que não permite a aceitação, a referência e a supremacia do outro no campo dos direitos e das obrigações, sejam de que natureza forem. Cada qual parece se responsabilizar por si mesmo, de modo autocrático e fechado. É por isso que as relações padecem de falta de solidariedade, porque esta nada mais é que uma extensão da prática da empatia. No mundo, porém, os poucos representantes de uma consciência sociopolítica e humanizada são vistos como santos ou mártires. Até porque tudo aquilo que presta mero auxílio ao próximo, em tese, recebe um cunho de atividade assistencialista. Ora, tentar sentir a dor que o outro sente e praticar o esforço simples da ajuda não deveriam ser atitudes naturais entre humanos? Mas a fraternidade – ou empatia solidária – não é vista desse modo; parece algo sobre-humano de tão sublime, nobreza pouco comum a meros mortais... Basta que uma pessoa pratique uma boa ação, por exemplo, para que lhe atribuam rótulos de Madre Teresa de Calcutá ou similares, como se não fosse obrigação do individual preocupar-se com o coletivo, e lutar, dentro das próprias ações cotidianas, para modificá-lo com melhorias.

Não quero dizer, com isso, que a permissividade ao outro deve ser absoluta. Certamente que não, afinal pode haver falta de empatia também no outro. A questão é justamente essa: a real vivência da empatia num terreno fértil de reciprocidade. É preciso, pois, escutar quem fala a você, de modo direto e sincero. Resta-lhe a contrapartida. Afinal, o planeta se move assim: com o necessário feedback em tudo: nos jogos, nas relações cambiais, nos romances, nas integrações familiares, de trabalho ou sociais. E a chave simples pode, sempre, estar no fato de se enxergar com clareza o universo possível do outro. Não se trata, pois, a empatia de uma exorbitância utópica nas relações humanas. Contrariamente, deve ser uma prática comum, um viés de união entre os seres da razão.

Por Sayonara Salvioli