terça-feira, 20 de novembro de 2012

MODO IMPERATIVO DE CONEXÃO






Você já deve ter ouvido falar sobre o tal e propalado "imperativo de conexão". Mas, se ainda não conhece a expressão, ainda assim sabe o que significa: essa necessidade que hoje as pessoas têm de estarem conectadas à Internet o tempo todo. Afinal, você e eu, tu e nós, eles e elas – todos, sem exceções – somos ( e estamos) constantemente arrebatados pela sedução da máquina que unifica o mundo. É claro que você já sabe: o seu computador polariza suas intenções e ações na rotina! Pois é a isso que chamamos imperativo de conexão, essa relação estreita que você desenvolve com o mundo por meio da cibernética doméstica, num celeiro de relações conectado pelos fios cotidianos de vibrantes ondas comunicacionais.





Quem ainda não percebeu ter o próprio vício em relação às redes sociais? Ora, em maior ou menor escala, as pessoas hoje – e não apenas os heavy users das gerações Y e Z  (e seus novos ramos) – estão propensas ao imperativo de conexão. Além disso, qualquer pessoa, em movimentos rotineiros de exceção – quando viaja ou passa por alterações ocasionais –, lança mão de alguma plataforma auxiliar para conectar-se e manter-se em dia com os diálogos eletrônicos de sobrevivência. Sim, de sobrevivência! E não falo apenas das mídias de socialização (ditas escravizadoras por alguns); refiro-me até ao relacionamento interconectivo com o mundo pessoal e profissional que você (ainda) mantém por meio de seu e-mail. É claro que hoje, com o domínio do reino da imagem, você se comunica muito (pelo menos amistosamente, em seu lazer) por meio das mídias sociais. Mas, se você tem terminais neurológicos o tempo todo conectados, assim como eu, é certo que até adoece se não acessar a sua caixa de entrada, não é?




Outro aspecto claro: o armazenamento da (antiga) privacidade dos cidadãos do mundo. E a sua vida expressa em diretórios digitais, na verdade por eles atraída, colecionada e arsenalizada. E o monitoramento é amplo: num histórico de mensagens é possível medir o seu nível de relação com determinada pessoa pelo número de e-mails trocados com ela. Assim, se entre você e Pedro existe um histórico de 449 e-mails, a interseção significa que vocês têm um forte laço, superior àquele que você mantém com Rodrigo, cuja intensidade de relacionamento o Yahoo contabiliza em 138 incidências. Também a maior parte de seus projetos, compromissos e agendamentos enchem as pautas do correio eletrônico. E até arquivos armazenados em pastas específicas de prevenção. Enfim, toda a sua vida, contextualmente, em acessibilíssimos dados!... O seu provedor provê e prevê integralmente seus movimentos cotidianos, o que inclui planos primordiais, desejos e contatos ali reunidos. A Central Google e suas conexões têm a sua vida nas mãos e podem controlar seus movimentos e ações. Silogismo perfeito? A resposta a isso (ainda) não é o mais importante. A premissa (interrogativa) mais que básica é: você se move sem conexões cibernéticas? Provavelmente, não. E isso não é absolutamente negativo se você apenas ferramentaliza um mundo de possibilidades a seu favor. Assim, quando viaja e não leva suas máquinas-mães com certeza vão na bolsa de mão o iPad e o iPhone... Até porque como você ousaria andar por aí nu de conexões? Wi-fi é uma entidade neurodigital perseguidora de intenções.

E essa rede de informações compartilhadas e ações multivivenciadas é a prática moderna daquilo que, nos primórdios do milênio (há pouco mais de uma década!), se chamava de globalização efetiva. Pois bem, a tal (agora quase jurássica) expressão aldeia global se polariza na sua constante interatividade com o mundo. Se você é um publicista, ganha todos os mercados digitais; se empresário de ativo e-commerce, fica multiplamente rico; se executivo de grande porte, viabiliza conferências internacionais a um clique; se criador de alguma arte, tem seu produto difundido por outras culturas.



E, ainda, se produtor de material intelectual para publicações ou instituições de outros países, você internacionalizou (em contatos de último grau) tanto as suas relações profissionais que já nem se lembra do (ex) imperativo do fuso horário. Você no Rio de Janeiro, seu companheiro de trabalho em Genebra... e seu produto é uno! Você fala a nova linguagem universal da instantaneidade e, em poucos segundos, recebe pagamentos do contratante e emite dinheiro para a sua conta por meio do Paypal. E o sistema também permite acesso imediato ao mais recente lançamento da Burberry! Indo menos longe, para as aplicações diárias, você pode comprar on-line aquela fantasia para o Halloween de seu filho, um HD externo para garantias documentais ou, ainda, trazer para a sua mesa, a um simples clique, aquele delicioso Frango à cubana... 

Ainda que sem a prerrogativa de compras ou expansões profissionais, se você é simplesmente um heavy user da Web 2.0, já configura o perfil de um jogger multidinâmico do game contemporâneo do imperativo de conexão. 



Tocando no cerne da sua própria questão: um formigamento neural toma conta de seus ligamentos se você não pode abrir o seu Facebook ou verificar as novidades dos últimos quinze minutos no seu e-mail? Você necessita saber o que se passa na metralhadora giratória das incessantes relações eletrônicas? Ah, o mundo pode acabar se você não fizer o seu networking do dia! Alguma identificação com essas assertivas e indagações? Resposta simples: você está definitivamente plugado e não pode retroceder etapas nesse jogo. A boa mesmo é fazer amplo uso disso. Antes de tudo, é preciso entender que, do entretenimento ao trabalho, você se espalha hoje pelas dimensões diversas das plataformas cibernéticas. É como se um cabo de virtualidade conceitual – de posse de seu mapeamento eletrônico – distribuísse energias intercomplementares por suportes concomitantes de transmissão e recepção. Liames complexamente integrados ao seu corpo. Você, o mundo e os chips: interseção eletroneurológica, o novo tratado tecnocientífico das cabais relações entre a humanidade e uma dominadora trupe de andróides. Seu celular e seu corpo (!) são facilmente detectados a distância em velocidade e potência indomáveis. Você é reflexo espontâneo de seu smartphone. Na cozinha dos humanos mais avançados já existe até impressora de alimentos. E em quantos pixels está dimensionada a sua imagem digital? 

Chegamos ao futuro, caro leitor. Não há mais tentativa de ficção; definitivamente a estação cibernética acoplou-se à nave orgânica. Trata-se do tempo-reino do IMPERATIVO DE CONEXÃO:

Conecta tu
Conecte ele / ela
Conectemos nós
Conectai vós
Conectem-se (todos) eles. E com as devidas adições reflexivas.

E, é claro, eu me conecto indicativamente!

Por Sayonara Salvioli


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CANDICE, A ABELHA-RAINHA

CANDICE, A ABELHA-RAINHA


Seu nome era Candice. Nome estranho, sem dúvida. Porém, ainda mais estranho era aquele bico-de-viúva que ela trazia na testa. Embora fosse uma mulher bonita, aquele desenho em forma de V capilar, tão profundo e bem no meio da fronte, tinha o poder de assustar quem quer que viesse a saber de sua história.

Era uma mulher alegre (alegríssima) em seus trinta e sete ou trinta e oito... por aí. E conservava uma tez bonita. Mais que isso, tinha um corpo de dar inveja às mulheres de Meu Rei, um vilarejo da Bahia. Mas não era só por isso que alimentava fofocas e burburinhos na praça, na igreja e na venda de Dona Alicinha. O que diziam as más – e as boas – línguas era que ela, amásia profissional, já estava no nono parceiro. Amásia pela prática da arte, não pela condição civil, pois nos seus casos a conversa passava sempre pelo cartório. 

Sim, naquela vila de 889 habitantes no fim do mundo, uma balzaquiana estereotipada, usando uma maquiagem brega, com pinta no rosto e brincos esdrúxulos, era o protótipo da casadoura provinciana, um caso típico de colecionadora de maridos. O motivo? Além da natural aptidão de ninfomaníaca, era uma mulher desletrada que fazia das artes do corpo seu ofício de vida. Exercitava o popular "fazer a vida", sem, no entanto, viver numa casa de quengas. 


Candice vivia na sua própria casa – grande, confortável, com oito ou nove janelões na grande fachada pintada de verde musgo. A casa era boa, mas a cor da pintura era feia, de grave mau gosto. No entanto, Candice estava satisfeita, satisfeitíssima com seu lar de parafernálias coloridas e algibeiras cheias. Isso porque, segundo diziam as visitas da mulher (que se aproximavam por puro interesse de conhecer sua vida de perto), algumas coisas chamavam a atenção na casa: a famosa “penteadeira da Candice” – enorme, tomada de perfumes e estojos de maquiagem; o baú de joias, a banheira margeada por uma coleção de essências e cremes; e – pasmem! – sete, oito, dez, treze... bolsas entreabertas lotadas de cédulas, como se podia ver... Bolsas coloridas e bordadas com miçangas... e recheadas! Ela guardava (mantinha) dinheiro assim aos olhos de todos! Mesmo vivendo numa pacata vila, corria permanente perigo de furtos e invasões. E, apesar da sorte de nunca haver tido a casa literalmente invadida por elementos perigosos, era voz corrente que muitos – amigas, empregados, aparentados, visitantes – se “davam bem” ao circularem em sua intimidade com acesso às bolsas cheias espalhadas pela casa.

Corria também à boca solta que Candice teria um cofre escondido – com dezenas de tabletes de ouro!  Tudo começara por causa de um mimo de seu terceiro marido: Aurecindo, o ourives. Certa vez, ele dera à mulher um pendente de ouro 24K inteiramente cravejado de   brilhantes, peça que Candice nunca mais deixou de usar, junto dos outros penduricalhos que carregava nas grossas correntes que davam voltas em seu pescoço. Por causa disso, a casadoura veterana adotou uma coleção de ouro a partir daí. Todos os “da vez”, além de a proverem com uma monumental conta bancária, eram intimados por ela a presentearem-na – no aniversário e nos desaniversários (como diria Carrol) – com mimos reluzentes, preciosos... e áureos!  Joaquina, a empregada de onze anos de casa, apregoava ainda que vivia achando “sacolinhas de veludo com ouro em pó” nos bolsos dos casacos da patroa. 

Na verdade, Candice era obcecada por desejos materiais, desenvolvendo um perfil maníaco que poderia classificá-la como auréfila (quem tem amor ao ouro). E a insanidade chegou a extremos quando a mulher equipou a casa com cama, espelho, aparador e até pia de ouro!





Outra atração da casa era o armário dos falecidos. Construído como uma grande vitrine de madeira de lei, deixava à mostra – pelo vidro frontal – os ternos de todos os maridos, a saber: Rubião, o fazendeiro de cacau; Ariovaldo, o tabelião; Aurecindo, o ourives; Ovídio, o fiscal de rendas; Duílio, o médico; Berilo, o comerciante; Anacleto, o delegado; e Bertoldo, o juiz. E a mulher ainda mandara um marceneiro aumentar o móvel porque pretendia continuar a coleção. De ternos masculinos? Não, de maridos, cada qual a trazer mais benefícios e afortunamentos que o anterior.

A coisa era tal que, no velório do oitavo marido – Bertoldo –, com o corpo do pobre – ou melhor, do rico – ainda quente na sala de visitas, ela falou a Ernestina, sua melhor amiga: 

– Ai, mulher... que não aguento mais tanto sofrimento! Já é o oitavo que me vai... Parece que eles escapolem de mim!... 

E Ernestina:

– 881 – murmurou a amiga, referindo-se ao número de habitantes da cidadezinha... [
Candice matara 8]!

– Como? Não entendi... – fez-se de Joana-sem-braço a assassina sem dolo(?)

– Nada, não – e disfarçou Ernestina, aproximando-se da amiga e a consolando – O que importa é que melhore logo, saia logo desse tormento...

– Ah, Tina... Sei se vou sair dessa vez, não... Estou muito acabrunhada! – e esfregou o lenço nos olhos secos. 

– Você fala assim, mas logo, logo se recupera, minha amiga! Já outras sete vezes passou por isso, e, antes de completar o luto, recebeu proposta e aceitou outro homem em casa! Não há de ser agora que vai amarelar... pois não estou certa?

Candice estava com o olhar parado. Ernestina insistiu:

– Arre, me diga aqui se não falo a verdade? Não vai logo arranjar outro marido? Pare de ficar com esse olhar perdido, mulher! Prefiro a minha amiga serelepe e sestrosa a uma montanha assim parada em cima da cadeira... Fale logo: em que está pensando? Ficou deprimida?

E Candice disparou:

– Na verdade, maltrata-me ainda mais a dúvida... Não sei, ainda, o que decidir sobre o próximo partido, minha amiga... Qual deles poderá me dar uma vida melhorzinha: Adamastor, o industrial ou o embaixador Gastaldo?

Venceu o embaixador. Foi verdade que Candice cultivou uma dúvida muito cruel até decidir. Mas depois concluiu que um homem de mundo lhe traria dividendos em outras moedas. E o destino do novo marido conseguiu ser ainda mais drasticamente acelerado, para pasmo do povo baiano daquela localidade...

Já havia (já?) vinte e oito dias do passamento do antigo marido, o mais recente, Bertoldo,  quando o escrivão de paz Lenivaldo Junqueira professou, para Candice e Embaixador Gastaldo, em tom solene no centro da sala:

– E vos declaro marido e mulher.

Troca que troca aliança, parte-se bolo, toma-se champagne... e Candice expulsa o povo para poder viver a sua lua de mel:

– Vamo, gente, que a noite já vem chegando e quero ficar sozinha com Gastaldo pra dormirmos bem abraçadinhos!

Algumas convidadas momescas roubaram seu quinhão quase permitido de bem-casados, enfiaram-nos em suas bolsas e lá se foram...



Todos, afinal, se foram, apesar de muitos temerem pelo breve (e já condenado) resfolegar do próximo falecido...

Uma vez só, Candice sorriu seu sorriso ornado por dois dentes de ouro – um de cada lado –, aquelas joias bucais estranhas que mais pareciam duas presas de uma tropical Cleópatra.... E Gastaldo? Ah! Este não resistiu às torturas e à mordida (leia-se picada) fatal de Candice!... Famosa por matar os maridos com seus encantos pouco comuns, dando cabo de todos eles em menos de um ano de casamento, desta vez a mulher errou na dosagem – ou acertou em cheio, não se sabe ao certo – e o pobre do zangão da vez sucumbiu mesmo à primeira ferroada!

O vilarejo entrou em polvorosa. Estava claro para todos o poder de fogo da bruxa da paixão (alguns a chamavam assim). Mas matar o marido de amores, escusos amores(?), ainda na lua de mel? Ah, isso era coisa que ninguém conseguia engolir. As vizinhas matraqueiras não saíam da venda da D. Alicinha, a promoverem conferência em frente ao balcão. Diziam:

– Que Candice, que nada! Da pureza ela passou longe! Cândida nem a trisavó dela pode ser! Geração de filhas-de-Eva!

– Filha de Eva qual nada! A mulher é a própria serpente do Éden! É fruto proibido pros homens! 

– Dito e feito! É caírem na sedução dela e beijarem o chão de terra!

– Estranho esse poder dela de matar qualquer marido... Misericórdia!

– Será que ela sofre de algum mal contagioso?

– Ah, não, isso não! Porque assim ela haveria de morrer primeiro!...

– Bem pensado. A circunstância é mais grave, mais enigmática. Há um mistério muito sério na pessoa dessa senhora...

– E já repararam que agora os esposos morrem mais amiúde?

– É verdade! O primeiro morreu depois de onze meses de casamento, digo, acasalamento intensivo.

– E o terceiro, então, coitado, que – depois de seis meses de intensivão – foi encontrado na cama, atravessado no colchão, com os olhos esbugalhados e a boca roxinha?!

– Virgem santa!

– Nem uma coisa nem outra...

– Quero dizer que isso me assusta!

– Está assustado, é? Só porque você é novato na cidade! Se você soubesse, então, como morreu o quinto marido...

– Alguém pode ter morrido de jeito pior que os outros?

– Claro! O quinto morreu de sangramento mesmo, por causa daqueles ferros que ela usa nos coitados... Já viram aquelas correntes e aqueles estribos pendurados perto da cama dela?

– Instrumentos de tortura erótica! 

– E o sétimo, então, esse coitado urrava de dor lá pelas últimas! Uma tristeza!

– Eu, hein?! Credo em cruz! Essa mulher deve ter parte com o demo!

A dona da venda reagiu:

– Não pronunciem esse nome aqui dentro! Além disso, está na hora do cortejo. Não vão acompanhar?

As mulheres saíram, desabaladas, para não perderem acontecimento tão excitante às suas línguas ferinas. D. Alicinha, contida, apenas ficou a observar de longe. Apesar da sisudice, não pôde evitar um risinho de canto de lábio quando viu, à frente do enterro, a viúva, já de braços dados com Adamastor, o industrial. E pensou com os botões de seu armarinho:

– Colecionadora de homens... bruxa da paixão... essa aí é a própria abelha-rainha, isso sim!


Por Sayonara Salvioli

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O FANTASMA DA BIBLIOTECA

O FANTASMA DA BIBLIOTECA




Clara adorava ficar na biblioteca. Ler era a sua ação sistemática, do tipo diversão predileta mesmo. Lépida e observadora, de cabelos lisos e olhos assustados, parecia roer o mundo com a sua curiosidade. Mais que isso, tinha uma avidez incontrolável de saber, uma tal vontade de penetrar mistérios que a fazia ficar horas e horas entre os livros.

A pequena leitora gostava de descobrir as coisas da vida e, principalmente, como o mundo funcionava. É claro que os livros não tinham resposta para tudo, mas o conteúdo de alguns deles – a matéria do desconhecido – realmente a fascinava! Seus olhos brilhavam e ela apertava os lábios toda vez que se deparava com os temas extraordinários de Poe. Foi assim que ela descobriu, desde cedo, sua vocação para o imponderável, aquilo que não se pode desvendar ou tocar com a precisão das mãos.

Era bem verdade que a tal matéria do desconhecido, ultimamente, lhe trazia muito mais perguntas do que respostas. Mas talvez tenha sido exatamente isso que a levou a mergulhar fundo nas Vinte Mil Léguas Submarinas. Aliás, nos últimos meses, era mesmo por causa de Júlio Verne que ela não tinha a menor vontade de se juntar aos amiguinhos lá fora. Causava-lhe náuseas essa história de comer frutas em árvores, com casca e tudo, sem lavar! Brincar na terra, então, não era programa que a atraísse; detestava ver sua amiga Marina com os joelhos ralados e pingando sangue... Por essas e outras, sempre a chamavam de fresca, esnobe, xexelenta. Mas ela nem ligava. Cada um tem seu gosto, ora! E o dela naquele momento era viajar em aventuras distantes... Imaginava-se num balão com os colegas da escola, dando a volta ao mundo! Só que em menos de 80 dias, pois a sua pressa era muito grande, e o tempo-espaço maior ainda: havia muito o que visitar no mundo conhecido, mas ela também tinha planos de desbravar outras dimensões... Das instruções juliovernianas, por exemplo, ela também queria seguir à risca as coordenadas para a tal expedição ao centro da Terra, junto da turma. É bem verdade que, no trajeto ela teria que passar por situações horripilantes, mas estas não seriam em vão: ela poderia conhecer de perto criaturas que, até então, só vira nos livros; também teria a oportunidade de enxergar maravilhas escondidas e, quem sabe, descobrir algo que a fizesse entrar para a história da Ciência. Todo mundo sabia que ela queria ser cientista, conviver solitariamente com tubos de ensaio a fabricar poções miraculosas... Alquimista mais que funcional? Sim, esse era um dos fortes planos para o tal longínquo futuro... Quinta-essência?... Queria descobrir fórmulas transformadoras! Quem sabe inventar a máquina do tempo, quem sabe performatizar a unidade atômica?!

Naquela terça-feira, sentada de costas para a grande estante da biblioteca, sentindo o cheiro forte do tapete rústico de couro bovino, jogou-se na poltrona quando um livro grande, de capa dura, caiu no chão. Clara tremeu, pois as portas e as janelas estavam fechadas, inclusive com as cortinas cerradas, e não passara por ali o menor vento. Que sinistro o livro cair assim, sem mais nem menos! Ela se aproximou e o pegou. No momento, porém, em que ela leu a inscrição da capa, aí sim é que se contorceu toda de medo: estava escrito lá, com letras douradas garrafais – em cima da imensidão azul-marinho: O fantasma do Castelo de Scotney. Pavor. E o assombro ainda foi maior no momento seguinte, quando dois outros livros enormes despencaram bem perto dela, quase a atingindo. Ela leu as inscrições das capas e se arrepiou inteira! Saiu correndo da biblioteca, desesperada. E foi com a língua de fora que se abraçou à mãe, entre olhar arregalado e soluços, longuíssimos minutos após a corrida desabalada pelo corredor. Narrou à D. Elisa o que se passara. A mãe, no entanto, reagira com o bom senso e a clareza de sempre: 

– Onde já se viu, Clara, achar que a biblioteca tem fantasmas só por causa de uns livros que caíram? Que futura cientista é você que acredita nessas coisas?

Ao ouvir as palavras seguras da mãe, a menina assentiu naquela racionalidade. Era verdade mesmo: livros caindo sinistramente no chão não sinalizam ataques de fantasmas, mesmo um volume narrando as aventuras horripilantes passadas num castelo inglês, outro contando sobre soldados romanos ultrapassando paredes e, ainda, um terceiro contendo as narrações extraordinárias do mais poderoso caça-fantasmas profissional do século XIX, as aventuras de Mr. Price... 




Apesar de tudo, Clara pensava, aquilo não passava de um amontoado de coincidências. Como a mãe bem dissera, ela – uma futura cientista! – não poderia acreditar em historinhas de fantasma. Que efeitos Poltergeist que nada! 

Mas o resto do dia se passou sem que a menina se esquecesse da queda confluente de livros sinistros. Afinal, por que motivo despencariam da estante, de pontos diferentes, três livros com histórias de fantasmas?! Era bem verdade que o tema a interessava muito, mas não era nada confortável – ou recomendável – que ela ficasse com aquilo na cabeça, afinal não conseguiu almoçar e nem se concentrou na leitura de outros livrinhos inocentes... Até mesmo a terrine de morangos com natas – sua ceia certa das 15h – permanecia intocada sobre a mesa do lanche. 

Clara pensou e pensou, e quando a noite caiu ela havia firmado uma ideia na cabeça... Estava decidida: seria naquela noite! Nada mais a demoveria de sua intenção. Afinal, já se preparava muito tempo para aquele confronto. E não seria um medinho à toa que a faria sucumbir.


&&&


O relógio marcava meia noite e treze quando a menina torceu a maçaneta de bronze de seu quarto e saiu a correr, ventando, pelo corredor de 33 metros da grande casa dos Clayton. Como de costume, enquanto corria não tinha coragem de olhar para trás, pois sabia que, de cada uma daquelas portas gigantescas, saía voando um espectro branco de luminosidade de outro mundo... Apesar de sua recente decisão, ainda tinha medo de encará-los. Seu objetivo, agora, era tão-somente alcançar a biblioteca. Corria que corria, e finalmente se viu atravessando a porta do escritório e tateando no escuro em busca do interruptor para acender a luz. Ao fazê-lo com a mão esquerda, ao mesmo tempo esticava o bracinho para bater a grande porta. Feito isso, deu uns passinhos corridos e virou a chave, por via das dúvidas. Ora, que estupidez a minha! Fantasmas podem atravessar paredes e portas... Apesar disso, tentou acreditar que a fechadura os deteria provisoriamente, protegendo-a em seu mundo particular. E foi munida dessa proteção imaginária que subiu, pé ante pé, os degraus da escada que conduziam até a última prateleira da estante de mais de 4000 volumes. Uma vez lá em cima, pegou o grande livro de capa de veludo carmim e desceu, mais rapidamente, até ouvir uns sons distantes, soprados pelo vento lá fora, o que a fez despencar de medo, no antepenúltimo degrau, caindo meio desabalada sobre o tapete de couro de boi. 

Mas a menina respirou fundo e, decidida, lançou-se sobre a bergére de vime, que, de tão alta, a deixava com as perninhas suspensas. Mais suspenso ainda, elevado à dimensão da investigação, estava o seu cérebro, profundamente estimulado com a experiência que iria desencadear naquela noite. Clara manuseava o Grande Livro com a coragem desbravadora de uma verdadeira Clayton. E foi com o mesmo ímpeto de seu antepassado –  John Clayton – que ela abriu no marcador dourado da página 44. O título do capítulo era O Fantasma da Torre Verde

(...)

Por Sayonara Salvioli

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Heranças de Marlon Brando

Heranças de Marlon Brando

                         Sあよなら


Você acha que eu tenho "cara" de Paloma, Cíntia, Fabíola ou Sayonara? Os três primeiros estavam na lista tríplice do meu futuro provável nome. Mas creio quase completamente que você optará pela última alternativa, já que me conheceu com esse emblema. O que talvez você não imagine (isso não vale para os cinéfilos!) é que devo o nome a Marlon Brando.




Como? Explico-me: doze anos antes de eu nascer, um filme de Joshua Logan – baseado no livro homônimo de James Michiner – alcançou grande sucesso na telona mundial. Sayonara tornou-se um clássico do cinema norte-americano. Vencedor de quatro Oscars, chegou a ser indicado para a premiação de dez das estatuetas. E o mais interessante de tudo isso (o que, aliás, move esta lauda): o famoso filme que tinha Marlon Brando como herói romântico foi uma típica produção do Star System! Esse era um modelo-sistema de “produção de astros de cinema” capazes de cativar e fascinar os espectadores. Naquela época do cine glamour, principalmente, era comum que atores e atrizes caíssem fortemente no gosto do público e, como estrelas que eram, se transformassem em chamarizes para o sucesso de novas produções.       



E os mentores industriais do cinema perceberam, claramente, a grande potencialização de mercado que seria criar astros passíveis de habitarem o ideário das pessoas. Pois bem: Marlon Brando é um grande exemplo desse Star System, plano artístico em que o mito e a sedução do cinema são como uma fábrica de sonhos imaginários.

Em meio a tudo isso, uma jovem de vestido rodado, cheio de poás, e cabelos à la Brigitte Bardot, já no adiantado dos anos 60 (como você pode reconhecer), suspirava com a literatura romântica e as cenas esplendorosas que produziam a cultura artística da época. E essa jovem, recebendo – anos depois ainda – o legado de Marlon Brando, encantou-se com o astro que fazia um oficial da Força Aérea Americana apaixonado por uma atriz do teatro japonês. Diante do romantismo exacerbado reinante entre as jovens, a mocinha dos anos docemente revolucionários guardou na memória ideológica o nome-título do filme: SAYONARA!

Pois bem, mais uma vez... Anos se passaram, a moça conheceu um jovem afoito, e três meses decorridos, quase se casaram. No entanto, ela não aceitou o primeiro pedido:

— Com essa pressa toda, o que irão pensar de mim, Jorge???

Mas Jorge era insistente, e – três outros meses depois – uma noiva de vestido tubinho, penteado 60mania, terço nas mãos, adentrava a Capela de Santo Antônio, ao som do canto gregoriano das Filhas de Maria. A lua-de-mel teve uma curiosidade que ainda conto aqui, e os meses seguintes – no mesmo ritmo de pressa do noivo – estariam encarregados de trazer uma novidade em forma de bebê-menina. 

Porém, no oitavo mês da minha corrida ao mundo, prestes eu a atravessar a finish line, a quase-mãe escutou um estampido e, mais veloz que a luz, um espectro passou bem rente à sua barriga, meu guardadouro... Uma tremenda confusão no clube da esquina, em frente à residência do casal na Praça São Geraldo... Ímpeto de um new playboy desordeiro – num tempo todo-paz-e-amor – espocou numa bala que atravessou o jardim, a parede da varanda e a do quarto... e foi luzir bem diante de mim, ali debaixo da minha capa de pele!... Pois no instante imediatamente anterior, minha mãe falava do inesquecível filme e, sonhadora, se erguera – num átimo! – pronunciando o nome Sayonara, dando o seu erguer a exata distância do balaço que, um segundo antes, teria acertado sua barriga: oito centímetros perfizeram a medida da minha primeira resistência!

Àquela altura, contudo, mamãe não sabia que me daria o tal nome. Passaram-se mais trinta dias de pacatice típica de uma cidade do interior, período em que a futura-minha-mãe refez a lista tríplice para o sorteio de nomes, antes que chegasse a terça-feira santa em que eu seria extraída a fórceps (alguém aí aceita duelar comigo?!)...

Mas não se assuste que, pouco tempo depois, irrompi num choro vibrante e pirracento – como o de qualquer bebê normal –, passei pelo teste do pezinho e, em seguida, fui para os braços da enfermeira que, em alguns segundos, furou delicadamente as minhas orelhinhas para os brincos de rubi. Memórias suaves essas do meu nascimento!...

E o nome ainda se discutia: Paloma, Cíntia ou Fabíola??? Triplo dilema... que se tornou quádruplo! À tal listinha de nomes – prática bastante adotada entre as mãezinhas de gosto nominal multipolar da época –, foi acrescentado o nome Sayonara. E a mãe até que titubeou ao colocá-lo no saquinho de veludo azul-marinho antes de agitá-lo... Primeiro balouçar: saiu Sayonara. Mas a mãezinha teve dúvida e pensou que a segunda retirada traria Paloma. Nada: esta não veio de segunda viagem. Voou! Aí a Lei da Tríplice Teoria, que eu me autoaplicaria mais tarde, confirmou o indubitável: SAYONARA sobrevivia (literalmente!), resiliente a agitações e rateios triplamente sucessivos. Vez posterior: Cíntia não quis vir. Mas a minha mãe temeu a improvável classe interjeitiva de palavras:

— Não; é um bonito nome, meio musical, mas não é apropriado. É uma onda nova...

Quinta tentativa: chamou Fabíola, mais pelo significado... Mas a menina-bebê parecia querer ser mais personal do que um favo de mel.  E Fabíola não apareceu. Novo sorteio: SAYONARA. Mais outro, idem; ainda novo rateio, ipsis litteris. Última vez para a dúvida: SAYONARA. E fez-se o feito! Pensou a mãe:

— Parece que a sorte insiste com esse nome... Desde a quase fatídica noite!... Acho que a escolha já se fez!   E a recém-mãe apostou na sonoridade e na força oriental, carregada de magia, dos fonemas herdados da trilha romântica de 'Marlon Brando naquela farda!... Ah, que sonho aquele filme!'...



Nocaute do Star System: o que prevalece é a emoção dos sentidos! E assim se nominou a SAYONARA, digo, eu!

E a prova de como a sétima arte – com todo o seu fascínio – interfere nos processos socioculturais aí está: depois de um sucesso do cinema com um sedutor Marlon Brando a mocinhas suspirantes, uma interjeição oriental no Brasil se tornou substantivo próprio. E tais (re)alocações fazem, mesmo, parte da dinâmica das interações linguísticas. Um exemplo disso é termos também em outros idiomas um adjetivo como nome próprio. As classes gramaticais, ora, se alternam, agrupam e intercambiam em formas e conteúdos versáteis... E o novo modismo vocabular – Sayonara – disseminou-se não somente entre pessoas como também entre empresas e afins. Mas principalmente surgiram bebês-meninas, futuras moçoilas e mulheres que hoje somam centenas (ou milhares), como se pode constatar no universo abarcador das redes sociais, por exemplo.

E as herdeiras do Star System – e do sex appeal – do grande astro talvez gostassem de ver por aí o eco de seu próprio chamamento designativo. Afinal, por personalíssima que seja a pessoa, essa história de nomes “únicos” (imagine-se eu, que também sou filha única!) pode ser algo meio solitário. E também pode incitar a imaginação, como quando vim para o Rio e me tornei hóspede de um tradicional hotel no Flamengo... Foi um episódio bastante engraçado: eu ainda nem havia terminado de preencher a ficha, quando me foi dado um envelope que trazia meu nome impresso. Pensei, com todos os meus botões imaginativos:

— Que tremendo marketing eles têm! Ainda nem me instalei direito e não só sabem meu nome como já o imprimiram num envelope exclusivo!

Ahahahah! Como sempre me dizem: “imaginação de escritora”... Na verdade, meu leitor, o meu nome era o mesmo da razão social do empreendimento: no plano oficial, aquele conhecido hotel ali junto à Praia se inscreve como Rede de Hotéis SAYONARA. Também na Itália há pequenos resorts com o nome.

Mas o que alguém com nome diferente gosta mesmo é de encontrar outras pessoas com tal peculiaridade. E principalmente para quem, na infância, não brincou com uma amiguinha do mesmo nome é algo sui generis vivenciar as situações que passo a narrar (risos do narrador de época)... Ambas se deram ao telefone. Uma delas foi protagonizada por um recém-amigo-já-querido, que falou:

— Ah, é a Sayonara... que está indo para a Feira do Livro de Frankfurt?

Achei um luxo ser confundida com alguém (risos de estreante). Mas tentei esclarecer:

— Eu...

E sem que eu pudesse concluir a fala, ele continuou:

— Sim, sim, a escritora Sayonara...

Aliviei-me:

— Ah, sim...

E insistiu meu interlocutor:

— Sei, querida. Sayonara, escritora, que vai à Feira de Frankfurt e é casada com um alemão!

Desta vez disparei o gatilho:

— Nããoo!... Você está me confundindo com outra Sayonara...

Então nos entendemos com explicações mútuas. E eu lhe disse, como agora também a você:

— Já pensou o que seria: eu, com um nome japonês, um sobrenome italiano e ainda ligada a um outro nome – alemão! Meu Deus! Isso seria um verdadeiro atentado à integridade das Embaixadas! (risos internacionais)...

E a outra vez nem vou narrar aqui e agora, não. Vou aproveitar a imersão causada por esta crônica e fazer algo que já planejo há algum tempo: ligar para certa agência bancária do Arpoador, pedir para chamar a gerente e perguntar:

— Oi! Como vai? É verdade que você também é uma das herdeiras de Marlon Brando no Brasil? 




Por Sayonara Salvioli

quinta-feira, 7 de junho de 2012

LAUDA ELETRÔNICA saiu em CARAS!

LAUDA ELETRÔNICA saiu em CARAS!


Num dos verbetes da coluna ETIMOLOGIA, na ed. 7 de junho da revista CARAS, foi destacado trecho de uma das crônicas do livro, com menção elogiosa. Estou feliz e lisonjeada com a referência, essencialmente pelo fato de ser a coluna assinada por um dos maiores escritores e filólogos deste país, por sinal um de meus autores prediletos, DEONÍSIO DA SILVA. 

Veja o verbete:


Leoa: do latim leaena, feminino de leo, leão, pelo arcaico leom, designando a fêmea do leão e por metáfora a mulher corajosa, ousada, valente, intrépida, decidida, segura, invencível, rainha e, como ocorre entre os leões, aquela que defende e provê alimento aos filhos. O poeta maranhense Raimundo Correia (1859-1911), no poema A Leoa, conta de um animal faminto apavorando os habitantes da cidade de Florença, na Itália, à procura de pegar um deles para alimentar-se. Todos fogem, mas uma mendiga, já enfraquecida pela fome, com o filho nos braços, é encontrada indefesa: “Mas a leoa, como se entendesse/ O amor de mãe, incólume deixou-a.../ É que esse amor até nas feras vê-se!/ E é que era mãe talvez essa leoa!”. Também Sayonara Salvioli (43), em Implacável Força Feminina, bela crônica do livro Lauda Eletrônica, apresenta um pai comparando a filha a uma leoa ao cuidar da neta dele: “Quem diria que você, filha única, e tão novinha, iria se tornar uma mãe assim?... Parece uma leoa em defesa de sua filha!”



O LINK PARA O TEXTO INTEGRAL DA COLUNA DE ETIMOLOGIA DA EDIÇÃO É:

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Embate na maternidade



Embate na maternidade


Era uma menina cuidando da outra. Uma menina maior imaginativa – com asas no coração – olhando encantada para a sua boneca de horas... A pequenina chorava um chorinho manso, quase um murmúrio de querubim, chamando pela mão de veludo em seu rosto!... Menina grande acariciava a face da bonequinha e ela imediatamente parava de chorar! O tio olhava e ficava impressionado:

– Olha que incrível! Ela chora, a mãe faz carinho de leve no rostinho dela, e ela fica quietinha na mesma hora!

E assim era. Isso foi na maternidade, no primeiro dia. Também fora lá que, em dado momento, o médico dissera:

– A enfermeira vai levar o bebê agora.

E a meninona, com os olhos arregalados:

– Levar para onde a minha filhinha?

– Para o berçário. Lugar de bebê é no berçário.

– Não o meu bebê! – retrucou a mãe-menina. – Não vou permitir que levem a minha filha daqui! – e isso foi dito com ameaça nos olhos.

O médico, por um instante, até pensou em assentir. Ordem de mãe não se rebate, mesmo mãe-novinha que parece não saber ainda das coisas... Mas como ir contra as regras da Casa?

– Eu sou a mãe – insiste a jovem. – De jeito nenhum minha filhinha vai ficar longe de mim! – E, ainda mais imperiosa: - Mande trazer o bercinho pra cá. – E continuou:  – Eu, hein?! Que tremendo perigo! E se trocam a minha filha no berçário por outro bebê?

O médico garantiu:

– Isso não acontece. Segurança total. As enfermeiras têm muito cuidado. E há a pulseirinha, com o seu nome, no bracinho dela.

– Não passa pela cabeça do senhor que podem trocar a pulseirinha?! Não teme os  ardis humanos? O senhor nunca vai ao cinema? Não viu Marnie?

O médico se sentiu bombardeado de perguntas.

– Qual a relação? – perguntou, meio atônito.

– Pode haver aqui alguma enfermeira maníaca... por bebês!

– Você andou vendo muito Hitchcock. Isso acendeu a sua imaginação.

Eu já nasci assim, doutor. E, neste caso, a minha imaginação procede. Estatísticas mundiais consideram o alto índice de enfermeiros entre psicopatas. 

O médico começava a se assustar.

Além disso, entendo perfeitamente a Melanie... – insiste a divagadora meninona (incita a preocupação do médico, de propósito).

Silêncio pesado no ar, até o bebê chorar. A mãe para de ameaçar o médico com o olhar e volta os olhos na direção da criança. Menina-mãe acarinha o rostinho de menina-filha, e esta se aquieta novamente. Depois da trégua de minuto e meio  – com o médico observando, maravilhado, a mãe-meninona acalmar instantaneamente o bebê – continua o embate, pela mãe (claro):

Doutor, como eu estava dizendo, dou inteira razão à Melanie...

Que Melanie?

Desculpe, mas vejo que o senhor não saca muito de Hitchcock, Doutor... 

O médico percebeu que perdia na queda de braço.

Esqueçamos o cinema. Vou te dar algumas orientações sobre como cuidar de seu bebê. Na vida real.

Só depois que o senhor disser que a minha filha vai ficar aqui comigo o tempo todo, sob pena de ela correr perigo lá fora e depois o senhor poder até ser responsabilizado por isso!... Sei lá, doutor... Judicialmente isso de levar o bebê de uma mãe – para instalá-lo longe da proteção de seus olhos, arriscando a sua segurança – poderia ser considerado algo como omissão ou facilitação de crime, não? 

E o médico, pela primeira vez um pouco enérgico:

Já disse que esse tipo de coisa nunca aconteceu aqui, em mais de cinquenta anos de Casa de Saúde!

– É? – a mãe ponderou durante um piscar de olhos. Mas não se convenceu:

– Existe sempre uma primeira vez. E garanto ao senhor: não será com o meu bebê! – e quase se ergueu da cama.

O médico tremeu. Mães têm mais argumentos que o Direito e mais recursos que a Ciência. 

E Mãe-menina continuou:

– Mas me diga aqui, doutor, com toda a franqueza, se não existe estatisticamente alguma mínima possibilidade de isso acontecer?

O médico estava perplexo, com o terror nos olhos.

– Fale, doutor, se não há uma probabilidade de, pelo menos, 0,000001 % de chance de acontecer um sequestro ou uma troca de bebês? – E quase fulminou o médico desta vez: – Refiro-me a algo tão preciso quanto a sentença do doge de Veneza!... Não pode haver nenhuma milionésima probabilidade de erro de sua parte, doutor, pois isso seria crime e o hospital (entenda-se: o senhor) seria irrevogavelmente condenado!

O pobre homem mordia os lábios.

E a mãe, persistente:

– Então, doutor, se houver, minimamente, 0,000001 % de grave possibilidade?.. – falou Menina-mãe, com os olhos cuspindo fogo em cima do obstetra.  

Nocaute perfeito. A testa do médico suava... E o coitado sucumbiu:

- O.K., Sayonara. Vamos quebrar as regras do hospital: sua filha vai dormir aqui com você.

– Do meu ladinho?

– Sim, do seu ladinho.

E permanece quase assim até hoje, no quarto ao lado.


Por Sayonara Salvioli